O olhar do outro
que não me olha,
que não me nota,
que me ignora,
que me deixa...
Falta alguém ali...
Vejo o sorrriso,
vejo os cabelos brancos,
vejo o corpo concreto.
Falta alguém ali...
Vejo uma cadeira vazia,
vejo uma casa não habitada,
vejo o vazio, a ausência.
Falta alguém ali,
mas haverá sempre alguém aqui,
no pensamento.
Quem é este,
parado aqui,
olhando-me sério?
Quem é este?
Olho-o, examino-o,
assusto-me.
Quem é este,
quão cansados os olhos,
quão seca a pele,
quão duros os cabelos,
quão grosseira a fisionomia...
Quem é este?
Quem é este?
Sou este!
Mas eu não era
assim: sério,
parado,
cansado,
duro
e grosseiro...
Quem sou este?
À minha amiga Malu
Tua infância, desconheço.
Chegaste já grande
para nossa família.
Teu primeiro dia
foi de fuga...
Correste tanto,
mas tanto...
Pensei que jamais
alcançar-te-ia.
Fizeste a festa
logo na chegada.
Conquistaste todos:
Viraste o chamego,
a alegria da casa.
Adoeceste algumas vezes...
Derrubaste vasos,
rasgaste roupas,
latiste bastante...
Quando adoeceste,
ficamos abalados.
Vi a tristeza em teus olhos,
o lamento nos nossos.
Morreste sim,
mas tua lembrança permanece
viva, como brasa, em nós.
Descanse em Paz, minha amiga.
Ela chegou sem avisar
(como sempre, aliás).
Trouxe dor,
perda,
choro,
medo...
Ela chegou sem avisar,
mas, ainda que avisasse,
traria dor,
perda,
choro
e medo.
Água que escorre serena,
sussuro suave e leve.
Água que lava e limpa os pés.
Água mole.
Pedra dura.
Água mole
por cima da pedra dura.
Água mole e pedra dura:
paisagem incomparável.
Água que parece infinda,
água da minha lembrança,
água inesquecível.
Sim! Completamente morta!
Teu corpo exposto,
pintado de um vermelho-vivo,
vermelho-sangue:
Estás toda flagelada
pela ação dele.
Justo ele...
Ele que te teve.
Ele que recebeu teus beijos,
que te aceitou os afagos,
que te arrebatou os sonhos...
Justo ele...
Deveria proteger,
deveria salvar,
deveria amar...
Agora, ele sorri:
Viva alma a escarnecer
do teu corpo jogado, ensanguentado.
E tu, ó mulher, exposta a todos,
mostrada a todos
como se isso fosse banal!
Ó, mulher!
Tu não serás esquecida!
Esse silêncio sentenciado,
essa garganta impedida de si:
sentimento amoroso morto.
O vermelho já não é tão rubro,
o hálito se tornou trivial,
a boca dos beijos
é a mesma boca dos lamentos
As mãos que acariciavam,
e os braços que abraçavam
hoje sofrem passivos
diante do amor que se foi.
Na lembrança, vivas cenas do passado
são lâminas afiadas, cortantes:
O amor que se foi
é uma eterna dor que ficou.
Luciano Byron
dezembro/2005

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