2.10.11

Lembranças confusas

A imagem evanescente confunde o poeta.

Seria um rosto ou apenas uma (dis) simulação?

Existiria mesmo tal ser
ou isso é apenas mais uma conjectura poética?

E as palavras amorosas?
E os cálidos beijos?
E os apertados abraços?

Há algo que não está dito
em tudo que se viveu.

Em perenes lembranças,
segue o poeta a sua sina.

1.10.11

A morte do passarinho

"Era só um passarinho".

Engano: era "o passarinho".

Ele voava para ali,
para cá,
para lá
e foi no aqui
que seu voo terminou.

Contra o carro, chocou-se.
Subiste, não por tuas asas.
Subiste, não por tua vontade,
ó passarinho.

Pelo retrovisor, teu corpo
é visto pelo motorista
(que frieza!).

Não. Não era só um passarinho.
Era aquele que por muito tempo
tentou levar-nos a Deus
por meio do seu canto.

Voa, voa, passarinho!

Que teu voo seja eterno
ainda que não creiam nisso!

30.9.11

Malditas Comparações

São apenas comparações,
mas o poeta se ofende,
irrita-se com os dois
os dois em que ele se transformara
(ao menos no entender alheio).

São apenas elogios,
mas o poeta se ofende,
pensa que os seus dois eus
tem o mesmo prumo.

São apenas elogios,
mas o poeta sabe
que isso trará ainda mais peso
às suas já machucadas costas.

24.9.11

Ressalvas

O cansaço aflige,
o corpo pede calma.

A alma, agitada,
o espírito inquieto
incitam a percorrer o caminho.

Corre-se para onde?
Busca-se o quê?

Sem respostas, o corpo prossegue
nesta difícil tarefa de progredir.


23.9.11

(in)apto a crescer


No meu tempo de criança,
sabíamos os nomes dos carros,
dos vizinhos, dos colegas de escola.
No meu tempo de criança,
a televisão era nossa diversão,
o Atari era nosso microcosmo,
o futebol na rua esburacada
nos ajudava e nos socializava.
No meu tempo de criança,
brincávamos de adedônia,
tacávamos pedra nas lâmpadas,
tocávamos campainha dos vizinhos
e corríamos para nos esconder.
Eh! No meu tempo de criança,
criança era só criança,
nada mais.

9.9.11

Na esquina


Estás na esquina,
estás na porta do Banco,
deitado na praça,
escondido numa garagem.

És um irmão,
um alguém a esperar um "oi"
ou um aperto de mão.

Estás na esquina,
mas és ignorado
por quem paralelamente
cruza contigo.

És um irmão,
um alguém a esperar um algo mais
dessa vida que só lhe deu encruzilhadas.

GROSSERIA


Pessoas parcas
pronunciam porcas palavras.

No pensamento permanece
a imagem de quem
expeliu impropérios verbais.

12.8.11

Surpresa

A vida que incomoda,
que aflige,
que instiga,
é a mesma que mostra
o quanto se pode ser amado!

22.7.11

Mente vazia?

Quadro de Joan Miró
O pensamento translada
a vida acre
em abstratos desejos.

Nada dizem os lábios,
nada as mãos apalpam,
nada de concreto há.

Lampejos de felicidade...
Evanescentes indícios...
Verbalidades apenas...

Na tentativa de descobrir,
o poeta oculta,
coordena incoerências.

Nesse vazio,
tão povoado de conjecturas,
faz-se o viver.

26/04/2011


5.7.11

Notícia do jornal

A lama leva tudo:a lida finda, enfim.

O mar de água doce
desce a serra
e encerra, e traga,
e engole os restos,
os restos de vida.

um cachorro, teimoso,
a dona morta vigia;
um pai, herculeamente,
nos braços trotegeu o filho
do lájeo peso;
uns vieram para salvar
e jazem soterrados...

No rol da desgraça,
atualiza-se o número,
contam-se os mortos.

Na gênese da causa,
restam incertezas.
A certeza, então, grita:
- "É preciso respeitar
a milenar mãe-natureza".

18/01/2011

12.6.11

O Pêndulo da Morte


As cenas eram confusas. O som incongruente. As galinhas-de-angola, em bando (cinco ou seis talvez) atentamente o observavam. Aceleravam as patas aqui, corriam para ali e céleres cocoricavam em linguajar próprio. Pareciam agitadas (temiam a vidência do porvir?).

Chico Manuel há dias ensaiava a limpeza do pasto. E a foice para o labor? Estava sem corte. Limá-la? Sim. Ao cabo de duas semanas, é claro. A grande apatia demonstrada por ele era compartilhada pela mulher, a decadente “Maria do Chico”.

Neste dia, a taboca era um caldeirão só. Moscas fervilhavam num pedaço delgado de carne. Zumbiam ininterruptamente! Saíram de onde tantos insetos? O pequeno pedaço de carne virou um calhamaço de pontos verdes e varejeiras.

A mulher, capenga de uma perna, apoiada na meia porta, cabelos escassos, catarata em um dos olhos e dois guerreiros dentes naquilo que um dia foram duas arcadas potentes. Tentava mascar uma palha de milho (hábito antigo para passar o tempo). Na velha e escorreita boca, uma porção de catarro dança para lá e para cá. Catarro e palha, palha e catarro...

O marido a contempla.

O velho Totó, acomodado próximo ao fogão de lenha, três patas apenas tinha. A outra? Perdida numa boca de piranha no Rio Piramboia. O coto rabo abanava num movimento inútil. As moscas também lhe cobriam o rosto. Viu Chico Manuel sair, mas permaneceu na inércia. Acompanhar o dono era demandar energia. E na casa onde tudo faltava, abrir mão do repouso enérgico era um privilégio não desejado.

No ombro direito, o cabo da foice dançava amarelecido em Chico. A caminhada era breve mas lhe permitiu a parada para coçar a testa, atritada pela palha do chapéu.

No passivo passo, ainda espantou as angolas que ariscas o circundavam. Bichos enjoados. Saíssem de perto dele, não o importunassem.

Levantou a foice na diagonal direita e a desceu. Zap!, à esquerda. Zap!, à direita.

Sentiu que uma pequena coisa arredondada lhe tocara a perna. Seria apenas uma melancia-de-macaco... Sua precária visão não o permitia discernir o que de muito perto via. Tudo lhe parecia embassado. Mesmo assim, eliminou a moita de mato.

No caminho de volta, pensou na pinguinha que tomaria. Sentiu-se bem. Fizera a sua tarefa do dia.

Ainda transpassava a cerca bamba quando ouviu os alvoroçados sons das galinhas-de-angola.

Na ex-moita, Chico Manuel não viu: haviam se escondido algumas sete angolinhas. Todas mortas e decepadas, todas num amarelo-vermelho, num acinzentado-vermelho sendo veladas tristemente pelas mais velhas angolas.

20.5.11

Pêndulo da morte

O corpo raquítico
segura a foice:
paradoxo real.
A força empreendida,
a destreza do peão,
fazem tudo parecer tão fácil.
Uma moita, próxima ao curral,
uma moita a ser vencida.

Grupo de angolas,
cinco ou seis, talvez,
tentam coibir o avanço,
o avanço do homem.

Enxotadas, ficam ao longe:
parecem humanos a espreitar
desgraças irreversíveis!

À direita, à esquerda,
à direita, à esquerda,
à direita, à esquerda...
Rubra cor no capim esverdeado.

Pequenas angolinhas
com suas cabecinhas
para lá e para cá!

12.4.11

Sofrimento

As cenas confundem,

incomodam, inquietam...

São tantas lembranças

que não levam a nada.

São tantos desejos

perdidos em meio

ao lamaçal da consciência.


Como aguentar,

como não gritar,

como deixar a mente

livre de tanta falsidade?


O corpo apresenta os sinais

do descontrole emocional.

O olhar cansado,

a postura curvada:

o poeta é o mártir

de sua própria arte.

25.3.11

SENSAÇÃO DE PAZ

O suave som
celebra a seiva
de quem se solidariza
serenamente
com o céu estrelado.

20.3.11

Lição da lagartixa


A lagartixa estava ali,
meio sem cor, meio sem vida...
Lentamente, movia-se.
Algo estranho para um ser
tão acostumado a celeridades.
Aproximei-me e vi:
faltava-lhe parte da cabeça,
um dos olhos estava perfurado.
Sofri...
A pobre lagartixa não esboçava
um só lamúrio.
Continuava sua caçada
(quase uma saga impossível),
sem nada conseguir caçar.
A lagartixa mostra
o quanto se vive bem
se ignorarmos a verdade
dos fatos vividos.

7.3.11

Data de nascimento

Hoje é meu aniversário.
Não, não lamentem,
não lamuriem o meu nascimento
no século passado!
Sou feliz, tenho vida,
rejuvenesço a cada ano,
busco me reinventar!
Sou feliz pelos amigos que lembram,
pelos alunos que mandam sms,
pela verdade das palavras
que me dizem.

Hoje é meu aniversário
e a felicidade que sinto
compartilho com meus amigos!

1.3.11

Palavras

São tantas as cenas

que elas incoerentemente

existem sozinhas.


Sem reviverem no pensamento,

perpetuam-se no marasmo

que é o esquecimento.

26.2.11

Desabafo

Tanta coisa a dizer,
tanto a reclamar...

Como pode ser tão diferente
o tratamento que se dá a uns?

Como pode ser tão estranho
o amor destinado ao poeta?

Há dor e vida em mim!

22.2.11

brevidades

O dia cansativo não dizima,

não machuca,

não desilude.


O dia cansativo apenas passa

e com ele ficam as lembranças

de mais um corrido e agitado dia.

19.2.11

Metáfora

A folha voa, plaina levemente

até pairar sob meus pés.

Vida refeita,

folha desfeita.