15.1.12

Convivência


A convivência:
trivial metamorfoseado
da outrora beleza extremada.
Melodia fúnebre,
latentes, lastimosos lamentos.
O inverno aparece
e traz os badalos tristes,
o transbordar, o barulho do choro...
Lastimosos lamentos latentes.
Tontas tentativas, o tropeço!
Cada queda, cara na pedra.
O poeta percebe:
a certeza dilacerada.
Novamente, a sina:
neve quente,
no endurecido coração mole.

Pesadelo depois do almoço

O amor quando é forte
faz bater o coração
e mesmo estando sem sorte,
sentindo-me perto da morte,
não me deixo cair ao chão.

A mente pensativa
assusta-se, amedrontada.
E numa ação gradativa
e numa manobra ativa
vou atrás da minha amada.

Ao chegar, ela me olha...
Fico sem graça, falo tanto
que meu peito até se molha
e uma lágrima rola
e me vejo logo em pranto.

Rosinha, envergonhada,
vem minha lágrima conter
e pra mim, toda endeusada,
ela, minha querida namorada,
parece nada entender.

Desabafo! A cabeça a doer
faz de mim um flagelado
e num pulo, sem compreender,
digo a Rosinha, sem querer,
que dela não sou mais namorado.

Ela enlouquece, desmaia,
urra, geme, se aborrece
e sem que uma lágrima caia
ela diz ser da gandaia
como se tudo aquilo ela quisesse.

Não entendo nada, perco a razão
e Rosinha insiste, me xingando
dizendo-me horrores, um monte de palavrões
que não me amava de coração
e que já estava quase me largando.

Um namorado ela arrumara
lá pras bandas de Natal.
E desde então para lá rumara
e que até se casara
quando eu trabalhava em Palmital.

Num repente, um homem barbudo
aparece no lugar.
Ele grande, parrudo,
diz já saber de tudo
e que iria me matar.

Saca o revólver,
dá-me um tiro.
Eu finjo não me mover
e sem ele perceber,
do bolso um canivete tiro.

Enfio-lhe o objeto na garganta
e ele desfalece, espumando.
A Rosinha se amedronta...
Digo-lhe impropérios, deixo-a tonta
e dali me vou andando...

O corpo


Essa apatia,
esse corpo vulnerável:
a vida gasta em futilidades.

Para que enrijecê-los?
Flácidos logo estarão
ao chegar o pôr-do-sol.

A adiposidade generalizada
oculta a bela forma,
dos que um dia "foram"
(e não "eram"!)
egocêntricos seres.

O corpo, no anonimato,
vira arma psicológica,
vira ausência,
vira melancolia,
volve ao nada!

Ressalvas

Mudos gritos,
alma flagelada:
o sofrimento em coletivos.
A introspecção:
certeza do ser ímpar.
Amor incógnito,
vida flagelada:
como ser dois
sendo um no âmago?
Perfídia vã...
Intentei alianças:
Minhas agruras são!

20/01/2011

A folha seca roda, roda, rodopia,
contorciona-se ao vento,
dobra e desdobra
ao acaso...

Numa água, ela cai
e perde a autonomia de outrora.

A foz é o súbito destino,
destino de quem intentou
rompes as amarras do caminho.

19/01/2011

Angústia, vieste de onde?
Onde encontraste forças
para tanto assolar?
Onde tua abstração
encontrou a concretude?
Sem respostas, a personificação
parece-me intransponível.

Constatações


"Beleza é fundamental",
já disse o poeta.
Engana-se: a beleza é acidental!
A mais bela das moças
assim o é enquanto não há posse.
Muitas até chegarão ao casamento,
mas, ainda que "belas",
serão trocadas por outra(s)
ainda mais belas.
A relatividade da beleza de hoje
é o tempo até uma no amanhã.
A tênue certeza, então,
dúvida concreta forma:
se há amor na beleza,
na feiúra há o desamor?

22/09/2009

O poeta, mal

Na cela, o poeta.
Marceneiro linguístico,
desempregado.
Cria, copia,
inova, renova...
O artista só.
Só como a saudade,
sozinho como a solidão.
Olha a folha: branca,
alva como a inspiração
(que lhe falta agora!).
Os dedos desliza sobre o papel,
sente-os marcados,
vincados talvez.
Olha no verso,
há sombras de letras.
Mas como?, logo pensa.
Nada escrevera.
Mas há letras!
Letras de um pensar mediúnico,
de uma vocação insana.
E eis a razão do poeta
pensar não ter manchado
a face da frente da folha:
lembranças poeticidas.

Pai e Mãe

K'ien

A vida atormenta
e fere, e estraçalha
o ser poeta.



K'uen

A morte... ferida aberta n'alma.
O sonho... mal essencial à poesia.
A perda... anseio ímpar.


19/07/2010

12.1.12

As ideias se tornam claras

Como não percebi tudo antes?
Como não notei a ambiguidade das ações,
a fragilidade dos ditos,
a superficialidade dos momentos amorosos?

Como não percebi tudo antes?

Agora, resta essa dor,
essa malfadada dor
(que logo passará,é verdade!)
- segundo as leis Darwinianas...

Como não percebi tudo antes,
eu não sei...
Mas agora entendo bem
o que de fato aconteceu.

11.1.12

Adaptação da estória ouvida

Minha mãe havia me presenteado com uma Bíblia Ilustrada. Nem bem lia direito e já era iniciada nos ritos cristãos de crenças sobre o mundo e o Homem. Não entendia a forma como aquele Deus, O Criador, dizimava as nossas perspectivas de liberdade.
Bom, mas vamos lá. A história inicial era sobre a criação do mundo. Meu Deus! Quanto assombro tive naquele dia. Mamãe ia falando e minha imaginação, estilo “Mundo de Bob”, levava-me a conjecturar como Adão e Eva foram punidos, após conhecerem o pecado, perderem a inocência.
As imagens da Bíblia, essas sim me impressionavam!Parecia que algo era incoerente no discurso que mamãe me ajudava a ler. O pobre Adão, com apenas uma folhinha cobrindo o que até hoje nem ouso mencionar; a Eva com aquele ar de “não entendi nada” e uma enorme cobra, bem maior do que as que eu conhecia até então (ela era a verdadeira culpada pela perda da inocência dos dois; “ela era o próprio diabo personificado”, dizia minha mãe)... E Deus, o Todo Poderoso, com raios e trovões amaldiçoando o Homem para sempre. Tive medo. Tive muito medo! Como o próprio Deus haveria de expulsar suas criaturas do Paraíso? Vai entender, né? Perguntar isso para minha mãe, eu não ousava não! Seria tratada como herege ou desrespeitosa com relação aos ditames cristãos...
Anos depois, já era eu adulta... Após uma conversa com uma amiga, daquelas fanáticas evangélicas, disse que duvidava de tudo que a Bíblia dizia. Então, ela despejou uma infinidade de argumentos bíblicos (todos por mim já conhecidos)que me “incriminavam”. Estaria eu duvidando de tudo que Deus criara? Estaria eu destituída do Paraíso? Tive medo! Não consegui dormir! Já pensou se o Deus viesse falar comigo naquela noite e me repreender...Já imaginou se aquela enorme cobra (Que cobra!) me viesse também conduzir ao inferno... Tive medo! Tive muito medo! Preferi não dormir...
No outro dia, à hora do almoço, entre amigos confessei o meu temor. Claro que muitos riram de mim! Porém, contei-lhes o que havia acontecido.
Mas o pior de tudo era imaginar como havia uma dualidade em mim: via um Deus criador do mundo e um Deus terrivelmente malvado....

8.1.12

Mentira

Ela mentiu...
Virtualmente descobri que ela mentiu.
Não matou ninguém com a mentira,
não mudou a história do mundo,
não mudou nem a própria vida,
mas ela mentiu para mim.

Mentiu por conta própria,
mentiu por prazer ou necessidade
(sempre falam que elas mentem!),
mentiu por pura insanidade!

Ela mentiu...

Mentiu e se confundiu...
Perdeu-se em seus labirintos
e as facetas ocultas foram surgindo...

Ela mentiu e não viu
que quem perdeu com isso
foi só ela, foi só ela,não eu!

6.1.12

Frustração

O amor engana, machuca, maltrata até!
Do nada surge, do nada se consolida
e subitamente some.
Some quando o pensamento insistia em perpetuar...
Some quando o sonho parecia virar realidade...
O coração, tristíssimo palhaço, geme
em gemidos inimagináveis!

Triste canto

A música parou, a música parou...
Dos olhos, copiosas lágrimas,
copiosas lágrimas inundaram o ser...
a dor, a dor de perder
quem um dia tanto amor jurou.

Seria o fim...

As luzes se apagaram como no fim da vida...
"Eu te amo"... "Nunca vou te esquecer"...
Palavras que não foram capazes
de perpetuar um amor...
Se há tanto amor, por que a separação?
Se era para sempre, por que o nunca mais?
Incompreensíveis momentos,
doloridas palavras...

4.1.12

Sensação

Vasculho o pensamento,
busco momentos...
Momentos em que Amor, peralta,
flechou o poeta e sua musa.
Vejo os dois, abraçados,
escassos beijos...
Vejo os dois, trêmulos,
assustados talvez.
Vejo os dois: enamorados.
Vejo os dois agora ligados
pela mesma seta que Amor atirara.
Vejo os dois no amor que construíram,
no desejo que concretizaram,
racionalmente eternizando momentos.

2.1.12

Violentas palavras

As palavras feriram, machucaram...
Os sonhos ficaram nublados...
O amor dado não foi suficiente,
não foi suficiente para conter
a violência com que as palavras
foram escritas...
A dor agora gerada
rompe diques,
faz sofrer e...
entristece a quem as recebeu!

30.12.11

Desfecho

Meneios de vida...
Paz em pequenos pingos...
dor no não-ter
na certeza do não-ser:
(pre)conceitos, nada concreto!
Fim da linha para quem
nunca soube andar nos trilhos.

17/08/2011

Corpo pesado

A densa massa
amassa a forma real.
Há um ser por trás
de toda aquela banha.
Alguém de opinião,
com um ego suprimido
e com a vontade recalcada.
Na adiposidade da silhueta,
sudoríparas se apressam.
O corpo, molhado, rechaçado,
não é dela, não é teu,
não é meu.
A densa massa, fermentada,
sintetiza o anormal,
aquele que não se fez
apenas mais um estereótipo.

01/09/2011

O pé de milho

Naquela curva, o milho,
o pé de milho nasceu.
Nasceu como tantos,
cresceu intentando o eterno.
O branco, o amarelo, o grão de duro,
duro e avermelhado.
Espigas se foram.
Restou aquele inútil pé,
aquele ser vegetal sem função.
O verde amarelou-se,
acobreou-se...
Foi-se a densidade.
Naquela curva, o milho,
o pé de milho percebeu:
dar frutos não conduz
à certeza do eterno.

Não-cor

Rosa claro...
Pontos pretos...
O fígado oscila
entre o fim e o pré-fim.
Glicogênios? Não há.
Células hepáticas? Morreram
(evadiram-se do ser).
Sem metabolismo,
o corpo é só memória.

01/09/2011

A PENA

A pena plaina perene...
Na suavidade de seus passivos movimentos,
ela é conduzida para cá,
para lá, para aqui,
para acolá e ali.
Sua rota sem rumo
experimenta a liberdade.
Tensão...
Gota cai ali, cai acolá,
cai ali, cai acolá
e aqui.
Pequenos pingos:
pena pesada.
O chão e o esquecimento
e a letargia...

FALSA VISÃO

O corpo é traído
pela lucidez dos olhos.
Não se veem as rugas,
a pele seca, a senilidade.
Os olhos julgam pela sensação,
pelo ontem no hoje.

25.12.11

Momento enigmático

Do papel da bala, ainda me lembro bem.

Do beijo dado (não roubado),
da sensação de ineditismo,
do aroma de teu perfume,
da falsa sensação de calma,
ainda me lembro bem.

A pouca luz, o ermo lugar,
o mundo girando em torno do nós,
as poucas palavras pronunciadas,
a percepção de que o impossível
virara possível a nós:
disso ainda me lembro bem.

Lembro-me bem sim de tudo
que nos tomou naquela noite.
Noite eternizada nos arautos do pensar,
noite encarnada de acontecimentos reais,
noite realmente inesquecível.
Inesquecível pelo afeto do momento,
pela consubstanciação do que antes
era apenas um mero sonho ou vontade.
Noite para jamais ser deixada para trás.

18.12.11

Ela

Ela surgiu de repente
com seu jeito envolvente
a me cativar.

Ela piscou serenamente
e me deixou completamente
com vontade de a amar.

Ela mexeu comigo
e hoje sei: não mais consigo
sem ela ficar.

Ela me foi o abrigo
e se for preciso, com o mundo brigo
para com ela me enamorar.

Ela já me faz feliz!
Ela já me faz feliz!
Hoje digo abertamente,
hoje digo abertamente:
Ela é tudo que eu sempre quis!

Mais uma do amor

O amor que não se tem
é promissor,
é esverdeado,
é inconscientemente buscado.

No amor que não se tem
veem-se euforias mil!
Não há as brigas
(embora já haja os ciúmes!),
não há a liberdade,
não há ressentimentos.

Do amor que não se tem
pouco se esperava ter.
Não há o que lamentar,
não se esperava muito
ou quase nada, talvez
(sabe-se lá!).

O amor, que não se tem,
é uma incerteza concreta
na certeza da abstração
construída por tal amar.

Uma desatinada dor,
um descontente contentamento,
um distanciar-se bem próximo...

O amor que não se tem
e á alma do poeta.

17.12.11

Divagações

Sem amar, o poeta se esvai,
esvaindo-se em devaneios
e em construções linguísticas.

Ele analisa enunciados,
relê textos virtualmente enviados...

Sem amar, o poeta vira frágil,
fragilizando ainda mais seu ego.

Nessa sina não-torta
(a de amar e ser amado),
o poeta sofre,
sofismando momentos!

11.12.11

Tio Mário

Os pés de frutas ainda estão lá,
as galinhas-de-angola também...
O córrego, os papagaios, tudo está lá.
Até o cavalo-preto está lá!

Procuro o Tio Mário, não está lá.

Cessaram os causos,
terminaram as estórias de brigas,
não mais há o corpo,
agora há sim o mito.

Tio Mário vive nas bocas das pessoas
que outrora com ele conviveram.

A feira

Pessoas empurrando pessoas.
O homem se transforma:
é refém de seu insensato consumismo!

"Olha a água! Olha a água".
"Sacola, quem quer sacola?".
"Sete meias por dez reais".
"Óculos HB original"...

O egoísmo: uma mulher briga
com a outra por uma blusa.

A certeza buscam na incerteza
da ingrata missão de consumir.

O poeta se assusta:
há mais força na compra
do que no amor ao próximo.

9.12.11

Canto ao amor

As palavras saíram apertadas,
temerosas pela interpretação
que teriam ao serem recebidas.

Houve um subentendido,
houve uma explicitação,
houve a chance de concretizar
o teoricamente inconciliável.

As palavras saíram de outrem...

No poeta, elas foram adubadas,
foram alimentadas,
viraram seara...

As palavras agora são planos,
conjecturam, intentam, juram...

Mais uma vez, as palavras
construíram o amor.

15.11.11

A dinastia das palavras

As palavras foram construindo estradas...
Um subentendido aqui,
um pressuposto ali,
uma associação lógica acolá...

As palavras foram rompendo diques,
transbordando imaginações,
associando coordenações,
limitando ações...

As palavras tornaram o abstrato concreto,
o que se pensava no que se queria falar,
o que se esperava no que se queria buscar,
o que não se conjecturava no que de fato se queria.

As palavras, mais uma vez, mostraram a sua força
e impelem o pensamento a perpetuar períodos.

12.11.11

(In) Certezas

O trabalho foi feito,
o empenho foi dado.
Há tempos é assim,
mais uma vez foi assim!

Como há pouco,
cobranças me incomodam.

Esperam muito
de quem nada mais é
do que um ser humano.

Os defeitos, as expectativas,
os males sem saídas...

Mesmo assim, temo.
Temo como qualquer
outro ser neste mundo.

15.10.11

Abandono (in) humano

A fria calçada se assemelha sim
a um túmulo às escancaras.
O rapaz jovem, a roupa esfarrapada,
a planta dos pés encardida,
a bermuda xadrez e furada.
Moscas o sobrevoam.
Estaria morto?
Seria mesmo um alguém?
Ninguém sabe, ninguém o vê.
Os humanos, em seus egoísmos,
ignoram o irmão que jaz,
jaz ainda que tenha vida!

12.10.11

Melodia


Percorre as cordas do violão,
aquece as cordas vocálicas.
A música cantada não é nova,
não é dela, não empolga...

Refaz-se a posição...
Violão firmado, tom sintonizado.

A música cantada não é nova,
não é dela, mas empolga.

Olhos fechados.
No pescoço, as cordas dilatadas
e o suave som soprado.

Há cadência nas batidas,
há vida nas palavras,
há música mesmo afinal.

No compasso ritmado,
o poeta se esvai...
Mas a música não é nova,
é dele, é trova.

17/02/2011

2.10.11

Lembranças confusas

A imagem evanescente confunde o poeta.

Seria um rosto ou apenas uma (dis) simulação?

Existiria mesmo tal ser
ou isso é apenas mais uma conjectura poética?

E as palavras amorosas?
E os cálidos beijos?
E os apertados abraços?

Há algo que não está dito
em tudo que se viveu.

Em perenes lembranças,
segue o poeta a sua sina.

1.10.11

A morte do passarinho

"Era só um passarinho".

Engano: era "o passarinho".

Ele voava para ali,
para cá,
para lá
e foi no aqui
que seu voo terminou.

Contra o carro, chocou-se.
Subiste, não por tuas asas.
Subiste, não por tua vontade,
ó passarinho.

Pelo retrovisor, teu corpo
é visto pelo motorista
(que frieza!).

Não. Não era só um passarinho.
Era aquele que por muito tempo
tentou levar-nos a Deus
por meio do seu canto.

Voa, voa, passarinho!

Que teu voo seja eterno
ainda que não creiam nisso!

30.9.11

Malditas Comparações

São apenas comparações,
mas o poeta se ofende,
irrita-se com os dois
os dois em que ele se transformara
(ao menos no entender alheio).

São apenas elogios,
mas o poeta se ofende,
pensa que os seus dois eus
tem o mesmo prumo.

São apenas elogios,
mas o poeta sabe
que isso trará ainda mais peso
às suas já machucadas costas.

24.9.11

Ressalvas

O cansaço aflige,
o corpo pede calma.

A alma, agitada,
o espírito inquieto
incitam a percorrer o caminho.

Corre-se para onde?
Busca-se o quê?

Sem respostas, o corpo prossegue
nesta difícil tarefa de progredir.


23.9.11

(in)apto a crescer


No meu tempo de criança,
sabíamos os nomes dos carros,
dos vizinhos, dos colegas de escola.
No meu tempo de criança,
a televisão era nossa diversão,
o Atari era nosso microcosmo,
o futebol na rua esburacada
nos ajudava e nos socializava.
No meu tempo de criança,
brincávamos de adedônia,
tacávamos pedra nas lâmpadas,
tocávamos campainha dos vizinhos
e corríamos para nos esconder.
Eh! No meu tempo de criança,
criança era só criança,
nada mais.

9.9.11

Na esquina


Estás na esquina,
estás na porta do Banco,
deitado na praça,
escondido numa garagem.

És um irmão,
um alguém a esperar um "oi"
ou um aperto de mão.

Estás na esquina,
mas és ignorado
por quem paralelamente
cruza contigo.

És um irmão,
um alguém a esperar um algo mais
dessa vida que só lhe deu encruzilhadas.

GROSSERIA


Pessoas parcas
pronunciam porcas palavras.

No pensamento permanece
a imagem de quem
expeliu impropérios verbais.

12.8.11

Surpresa

A vida que incomoda,
que aflige,
que instiga,
é a mesma que mostra
o quanto se pode ser amado!

22.7.11

Mente vazia?

Quadro de Joan Miró
O pensamento translada
a vida acre
em abstratos desejos.

Nada dizem os lábios,
nada as mãos apalpam,
nada de concreto há.

Lampejos de felicidade...
Evanescentes indícios...
Verbalidades apenas...

Na tentativa de descobrir,
o poeta oculta,
coordena incoerências.

Nesse vazio,
tão povoado de conjecturas,
faz-se o viver.

26/04/2011


5.7.11

Notícia do jornal

A lama leva tudo:a lida finda, enfim.

O mar de água doce
desce a serra
e encerra, e traga,
e engole os restos,
os restos de vida.

um cachorro, teimoso,
a dona morta vigia;
um pai, herculeamente,
nos braços trotegeu o filho
do lájeo peso;
uns vieram para salvar
e jazem soterrados...

No rol da desgraça,
atualiza-se o número,
contam-se os mortos.

Na gênese da causa,
restam incertezas.
A certeza, então, grita:
- "É preciso respeitar
a milenar mãe-natureza".

18/01/2011

12.6.11

O Pêndulo da Morte


As cenas eram confusas. O som incongruente. As galinhas-de-angola, em bando (cinco ou seis talvez) atentamente o observavam. Aceleravam as patas aqui, corriam para ali e céleres cocoricavam em linguajar próprio. Pareciam agitadas (temiam a vidência do porvir?).

Chico Manuel há dias ensaiava a limpeza do pasto. E a foice para o labor? Estava sem corte. Limá-la? Sim. Ao cabo de duas semanas, é claro. A grande apatia demonstrada por ele era compartilhada pela mulher, a decadente “Maria do Chico”.

Neste dia, a taboca era um caldeirão só. Moscas fervilhavam num pedaço delgado de carne. Zumbiam ininterruptamente! Saíram de onde tantos insetos? O pequeno pedaço de carne virou um calhamaço de pontos verdes e varejeiras.

A mulher, capenga de uma perna, apoiada na meia porta, cabelos escassos, catarata em um dos olhos e dois guerreiros dentes naquilo que um dia foram duas arcadas potentes. Tentava mascar uma palha de milho (hábito antigo para passar o tempo). Na velha e escorreita boca, uma porção de catarro dança para lá e para cá. Catarro e palha, palha e catarro...

O marido a contempla.

O velho Totó, acomodado próximo ao fogão de lenha, três patas apenas tinha. A outra? Perdida numa boca de piranha no Rio Piramboia. O coto rabo abanava num movimento inútil. As moscas também lhe cobriam o rosto. Viu Chico Manuel sair, mas permaneceu na inércia. Acompanhar o dono era demandar energia. E na casa onde tudo faltava, abrir mão do repouso enérgico era um privilégio não desejado.

No ombro direito, o cabo da foice dançava amarelecido em Chico. A caminhada era breve mas lhe permitiu a parada para coçar a testa, atritada pela palha do chapéu.

No passivo passo, ainda espantou as angolas que ariscas o circundavam. Bichos enjoados. Saíssem de perto dele, não o importunassem.

Levantou a foice na diagonal direita e a desceu. Zap!, à esquerda. Zap!, à direita.

Sentiu que uma pequena coisa arredondada lhe tocara a perna. Seria apenas uma melancia-de-macaco... Sua precária visão não o permitia discernir o que de muito perto via. Tudo lhe parecia embassado. Mesmo assim, eliminou a moita de mato.

No caminho de volta, pensou na pinguinha que tomaria. Sentiu-se bem. Fizera a sua tarefa do dia.

Ainda transpassava a cerca bamba quando ouviu os alvoroçados sons das galinhas-de-angola.

Na ex-moita, Chico Manuel não viu: haviam se escondido algumas sete angolinhas. Todas mortas e decepadas, todas num amarelo-vermelho, num acinzentado-vermelho sendo veladas tristemente pelas mais velhas angolas.

20.5.11

Pêndulo da morte

O corpo raquítico
segura a foice:
paradoxo real.
A força empreendida,
a destreza do peão,
fazem tudo parecer tão fácil.
Uma moita, próxima ao curral,
uma moita a ser vencida.

Grupo de angolas,
cinco ou seis, talvez,
tentam coibir o avanço,
o avanço do homem.

Enxotadas, ficam ao longe:
parecem humanos a espreitar
desgraças irreversíveis!

À direita, à esquerda,
à direita, à esquerda,
à direita, à esquerda...
Rubra cor no capim esverdeado.

Pequenas angolinhas
com suas cabecinhas
para lá e para cá!

12.4.11

Sofrimento

As cenas confundem,

incomodam, inquietam...

São tantas lembranças

que não levam a nada.

São tantos desejos

perdidos em meio

ao lamaçal da consciência.


Como aguentar,

como não gritar,

como deixar a mente

livre de tanta falsidade?


O corpo apresenta os sinais

do descontrole emocional.

O olhar cansado,

a postura curvada:

o poeta é o mártir

de sua própria arte.

25.3.11

SENSAÇÃO DE PAZ

O suave som
celebra a seiva
de quem se solidariza
serenamente
com o céu estrelado.

20.3.11

Lição da lagartixa


A lagartixa estava ali,
meio sem cor, meio sem vida...
Lentamente, movia-se.
Algo estranho para um ser
tão acostumado a celeridades.
Aproximei-me e vi:
faltava-lhe parte da cabeça,
um dos olhos estava perfurado.
Sofri...
A pobre lagartixa não esboçava
um só lamúrio.
Continuava sua caçada
(quase uma saga impossível),
sem nada conseguir caçar.
A lagartixa mostra
o quanto se vive bem
se ignorarmos a verdade
dos fatos vividos.

7.3.11

Data de nascimento

Hoje é meu aniversário.
Não, não lamentem,
não lamuriem o meu nascimento
no século passado!
Sou feliz, tenho vida,
rejuvenesço a cada ano,
busco me reinventar!
Sou feliz pelos amigos que lembram,
pelos alunos que mandam sms,
pela verdade das palavras
que me dizem.

Hoje é meu aniversário
e a felicidade que sinto
compartilho com meus amigos!

1.3.11

Palavras

São tantas as cenas

que elas incoerentemente

existem sozinhas.


Sem reviverem no pensamento,

perpetuam-se no marasmo

que é o esquecimento.

26.2.11

Desabafo

Tanta coisa a dizer,
tanto a reclamar...

Como pode ser tão diferente
o tratamento que se dá a uns?

Como pode ser tão estranho
o amor destinado ao poeta?

Há dor e vida em mim!

22.2.11

brevidades

O dia cansativo não dizima,

não machuca,

não desilude.


O dia cansativo apenas passa

e com ele ficam as lembranças

de mais um corrido e agitado dia.

19.2.11

Metáfora

A folha voa, plaina levemente

até pairar sob meus pés.

Vida refeita,

folha desfeita.

12.2.11

FALAS


No repertório de lembranças,

está a casa, o campo, o cemitério.


Na casa, umidade, humildade,

velha palhoça a encantar,

a ensinar a viver.


No campo, o sol queima e fere

e amarela as já fatigadas ervas.


No cemitério, vida e morte se misturam

no itinerário de dores do poeta.


E assim, nesta ciranda do passado,

tempo e não-tempo confundem,

fazem sofrer, enganam e aterrorizam

quem as tenta entender.



4.2.11

Grandes pensamentos


Tenho pensamentos enormes,
que me consomem,
que me incomodam,
que me inquietam...

Tenho pensamentos enormes
que me fazem reviver.

Revivendo, repensando,
recapitulando e reerguendo.

Tenho pensamentos tristes,
maioria em mim
(minha triste sina).

26.1.11

O Sentir


Sentimentos são cruzes,

são pedras,

são descaminhos, enfim.


Sentimentos são vivos fantasmas

a nos espreitar

(querem-nos).


Sentimentos têm dois gumes,

afagam e machucam...


Sentimentos são doces melodias

em ásperos lábios sangrentos.


Sentimentos: essenciais e letais,

dualidade de quem intentou

conhecer o algo mais.

19.1.11

Incógnitas


O corpo dourado,
a tez amarelada,
o cabelo anelado,
o jeito envergonhado...

O poeta e suas conjecturas.

18.1.11

O deus Sol


Na maloca mística,
juntam-se os silvícolas
em homenagem ao deus-Sol.
Uns dançam,
outros contam lendas,
outros se iniciam nos ritos tribais
e todos adoram,veneram
a força heliocêntrica.

Entoam cantos específicos
e se preparam
para a chegada do calor divino.

Nesse palor tão desejado,
há esquecimento,
há desprendimento
(como forma de renúncia
em prol do deus).

Ficam parados,
não por pouco tempo,
até que lhes cheguem um sinal.

16.1.11

Chuvas no Rio


Contra o Homem,
a natureza insurge,
executa o papel anti-antropo.

15.1.11

Desabafo


Decepção, permanente companheira,
por que não me dás um lampejo de descanso?

Por que não te vais perpetuar
em outro caminho?

Por que não te assentar
em outra mente, em outro ser?

Decepção, vá-te daqui
(mas leve tuas consequências).

9.1.11

Mundo


Um irmão está jogado na rua.
Não adianta este cobertor que tenho,
não tem valia esse calor,
esse conforto.

Um irmão está jogado na rua,
na chuva, na lama, no charco...

O jornal que o cobria, não serve mais!
O simples cobertor, encharcado está!
O corpo do pobre irmão flutua:
Não, não está mais jogado na rua!

Calmamente, a água o leva,
leva, leva e o eleva
ao cume da existência.

Talvez não tenha Deus,
nem Fé, nem Rei
(sorte dele!).

Uma correnteza mais áspera
faz o corpo oscilar...

O corpo, no entanto, navega...

O destino: o mar
(refúgio de todos os viventes).

3.1.11

Lamentos


Amarga carga...
Como dói o peso
do que não aconteceu!

30.12.10

Dissimulação


Ninguém vê,
mas o outrem muito incomoda.

Em meio a risos vários,
o poeta finge ser,
cria um ser
que a todos parece real.

Sem saber o que ser,
a ferida purejante
atrai só pessimismo.

Nessa vida-morte, então,
o poeta dissimula
a dissimulada verdade.

Poeta


Sem perspectivas, segue a vida
como quem - em grãos - se envenena.

Há dor, há dúvidas...

O poeta segue a sua sina
de ser na vida o ser-não ser.

28.12.10

Incursões


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15.12.10

Vendedor de Redes


Cabisbaixo, embaixo de uma árvore.
Chapéu na mão, sem pão, sem nada:
só há redes, redes várias.

Carense, piauiense, paraibano,
de onde virá esse homem do pano?
Que reflexões o desligaram da venda?

O vendedor de redes é a metáfora
do fazer poético.

(Re) Vivência


Na lembrança, o mel, a doce fantasia
ainda persiste, insiste em existir.

As palavras pareciam cernes,
construíram pontes,
conjugaram o nós,
ignoraram o eles,
subestimaram o mundo real.

Veio o tempo, resolvendo enigmas...

Raras ficaram as mensagens,
poucas foram as conversas.

Destituída, a paixão é ilusão.

Na lembrança, a dúvida, a dor,
a vontade de que tudo se recriasse...

Tristura


Gotas rolam,
rolam e ralam
a pele.

Se o choro lava a alma,
a lágrima limpa a pele,a face.

No chão, a lágrima
irriga vidas,
encerra ciclos,
abre caminhos.

11.12.10

Incursões linguísticas


Tento entender...

Tento. Entende?
Tento ente,
Tento etno,
Tento...

Tento...

Destinatário específico


Quem entende
as entrelinhas...
Ela: só ela
(gêmeos às avessas).

3.12.10

Citando Cartier


Os corpos se confundem,
fundem-se na imagem.
São dois, são um...

Há ausência de cores,
mas os arranjos florais,
grafados no lençol,
dão um tom romântico
ao enlace carnal.

O anonimato instiga
e o observador imagina
o que os olhos não veem.

Há desejo, mas sem excessos.
Há volúpia, necessária
(dada a ocasião).

Os corpos em sua dança
encantam a quem os vê.

19.11.10

ESCURIDÃO


No tropel de incertezas,em disparada,
o rancor, a dor, o sofrimento.

O açougue humano se abre:
carnes e moscas se fundem
na putrefação cromática.

Não há sangue, líquido rubro.
Há coágulos de um vermelho-negro,
êmbolos que se multiplicam.
Incontáveis, as bolas pretas coadunadas
povoam o poeta.

18.11.10

Morte


Não conheço a Morte,
mas ela está em mim,
está no meu trajeto,
está no meu peito,
está em meu pai,
esteve em meu avô.

Não conheço a Morte,
mas ela se aproxima
e me mostra a ampulheta,
ampulheta que me diz:
- "Chegará a tua hora!".

Não conheço a Morte,
mas ela me espreita,
delimita meus passos
e me espera ansiosa
(ainda que eu não queira
conhecê-la!).

13.11.10

(Des) Construção


O abraço que não tive,
o afeto que me faltou,
fizeram-me assim...

A dor que me assolou,
a maldição que me persegue,
deixaram-me assim...

O beijo que não ganhei,
o afago que não senti,
Transformaram-me assim...

O sorriso que não vi,
o bilhete que não recebi,
foram essenciais para que hoje
eu fosse, assim, tão sentimental!

10.11.10

(Des) Viver


O sol marca a pele,
pintas pretas
(parasitas do ocaso).

Na face, faz-se o tempo,
a deplorável cicatriz,
a carcaça humana.

O riso em lágrimas,
o choro em ampulhetas:
Negra imagem se aproxima.

Não mais foge, não mais!

No menos perpetua lembranças,
revira memórias e se atém,
atém-se à teia que o devora.

(Re) Descoberta


O fardo é a gênese poética:
No pescoço, a dor incomoda;
na mente, as lembranças badalam...

Vasculho mentiras,
analiso enunciados,
revisito momentos.

O beijo não existe.
Abraço fogoso?
Não o há!

Desnorteio-me, embalde...

Minha sina torta:
prenúncio de desilusão.

14/09/2010

9.11.10

Ruínas Circulares


A cena cinza, insensata.
Um homem desce o rio,
rema, repensa, retoma
a memória que (des)conhece.

O lugar a que vai,
é velho, é estranho,
é o Templo do Fogo,
é a casa da sabedoria.

"É preciso sonhar", dizia.

Deitado, esvaía-se,
abstraía-se: sonhava.
Virava, então, deus do homem:
gênese antropocêntrica.

Frustração, porém, logo se fez:
fora também produto
do sonho de outro deus-homem.

2.11.10

Mundos Paralelos


A casa é a mesma,
é o mesmo alpendre,
é a mesma cor amarelada das paredes,
é a mesma jabuticabeira,
é o mesmo curral
(ainda que abandonado).

No pensamento,
o ontem e o hoje se entrelaçam,
viram imagem duplicada.

Entre a casa de ontem
e a casa de hoje,
encontra-se o poeta.

Nesse nem lá, nem cá,
sofre, chora, rememora.

O poeta não quer o presente,
mas também não quer o pretérito.

Como fazer os dois mundos coexistirem?
Como ligar o não ao sim,
o abstrato ao concreto?

Não há respostas.
Há dois mundos que não se misturam,
que se fundem
(surrealmente).

Ler é preciso!


Há algum tempo, tenho-me indagado sobre o real valor da leitura dos clássicos (principalmente para alunos egressos do ensino médio). A resposta é simples: sem a leitura dos "mestres literários" não se chega à compreensão dos mecanismos complexos do idioma. Ler, então, Machado de Assis se torna essencial e imprescindível! Conhecer textos de Drummond, é uma das obrigações iniciais do indivíduo. A partir daí, o aluno conseguirá perceber como diferentes autores moldam e usam o idioma dentro de seus textos.

Agindo assim, ou seja, lendo os clássicos, o discente perceberá como funciona a tal "licença poética", tão bem quista por eles (que não raras vezes perguntam-me onde a podem tirar!). Há diferença entre "erro" e "licença poética". Afinal, quando Chico usa a linguagem coloquial em alguns de seus textos está aderindo à possibilidade de reprodução da língua oral (e musicalizada, no caso). Logo, escrever bem não implica necessariamente escrever CORRETAMENTE.

Assim, vai aqui um recado: quem quiser andar "por mares nunca dantes navegados", precisa ler muito e estar a par dos ditames do idioma.

NOTÍCIAS


A mensagem chega,
intentos se confirmam:
caiu o Muro de Berlim!

Rompem-se os limites,
fixam-se leves toques,
conjecturam-se possiblidades...

Resta, no entanto, o temor:
o temor de ter tanto
sem nada ter,
o temor de perder o concreto
na ânsia do abstrato.

29.10.10

Psicografia Barata


Essa dor, essa desgraçada má sorte
é o que herdei, que muitos herdaram
e que leva o poeta ao fundo,
ao fundo de si, ao isolamento de todos.

Pensamento


Pensamento: liberdade do poeta,
pombas em bando,
dos rios, as águas transbordando...

Esse chamar, esse amar,
esse mar, este ar,
este "r" (do infinitivo?!)...

Pensamento: plurimundo,
futuro passado,
presente enjoado.

10.10.10

Sensações


Palavras não vieram,
sons não foram emitidos...

A memória verde irriga
a esperança da volta.

Faltam beijos,
abraços já não os há!

Resta, então,
esperar ou (des) esperar...

1.9.10

Rara flor


Este sorriso...

O encantamento,
a inocência.

O corpo de mulher
confunde-se
com o rosto de menina.

Este sorriso dual:
luz e trevas
a quem outra sina
não conhece.

Este sorriso,
lótus rara,
menina Ceta.

20.8.10

INDECISÃO


Indecisão...
A dor humana reside na
I-N-D-E-C-I-S-Ã-O!

O pensamento insiste
em ver os dois caminhos.

O de cá é farto,
é de bons frutos,
é de boa safra.

O de lá é escasso,
falta celulose,
falta motivação.

O que fazer?
Se na vida há tantos nãos
porque não escolher um
e abdicar do outro?

Indecisão...
És minha suprema companheira
nesta dura missão de:
D-E-C-I-D-I-R.

14.8.10

Pavão Genérico


Hoje tive uma infeliz experiência. Distraidamente, respondi a alguém que postava alguns textos num blogue. Prontamente, o pífio ser disse: "Você faz isso? Eu não tenho paciência para isso!". O pior de tudo foi que tal elemento se diz professor de Língua Portuguesa. Como pode um indivíduo dizer que é professor e ignorar os gêneros textuais hoje tão em voga (vide o fato de que até as Bancas de alguns vestibulares aderiram a livros dos chamados autores blogueiros)?
A empáfia parece-lhe ter tapado os olhos. Um pavão sem beleza, artificial! É isso! Um dublê de professor.

6.8.10


DECISÕES


A notícia trouxe a necessidade
de tomar decisões.
Não quero fugir,
mas não quero ficar...


Decidir machuca:
amigos ficarão chateados,
colegas ficarão desamparados...
O poeta precisa prosseguir
e decidir,
e mudar,
e lutar,
e c-a-n-s-a-r.

O poeta não desiste
e luta!
Luta para vencer
a dura peleja.

Na decisão,
reside a dor
e a vida do poeta.

18.7.10

Citação de Jorge Luís Borges


“O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo externo, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias de seu trabalho e eu decidi extraviá-las.”

15.7.10

Conjecturas






Ela não sabe,
mas fui seduzido!
Perdi a razão,
olhei em seus vãos
e vi a vida rejuvenescida.

Ela não sabe,
mas me satisfaz
o mero vislumbre
de um tenro corpo
em que exalam hormônios.

Mesmo sem saber
(quem não sabe: ela ou eu?),
o gosto dela está em mim,
corroendo-me, ludibriando-me
na ânsia do querer para ter.

Ela não sabe
que eu sei que ela sabe
que o corpo dourado me apraz!

Mãos acariciam, olhos despem...
Leda imaginação!



Luciano Byron
10/09/1999

Passado Ouropretano




Cismando, o poeta se esvai...
Há um quarto,
vários poemas na parede,
várias lembranças,
vários enredos sem final
(alguns até sem clímax).
Há, saindo dali, uma rua estreita,
há neblina, há umidade:
vida obtusa, caminho incerto.

Num átimo, mulher decomposta,
meretriz espectral:
a musa da gênese poética.

- "Será ela? É verdade? É ilusão?".

A dama se vai,
levada pela cerração.

O dia, a luz, o sol!

Não há vida para o poeta,
não há esperança.

Que volte a dificuldade de enxergar!

Luciano Byron.

Sina




Esse desejo estrangeiro,
essa dor augurada:
o poeta se refaz
a cada frustração!

Sua vida é o canto,
é a ferida purejante,
é o espelho de pandora,
é o inferno de Dante!

Na dança fúnebre,
renegada por todos,
o poeta rodopia,
roda, roda, roda,
escrevendo enredo repetidos.

Luciano Byron

Entrega Letal

(quadro de Salvador Dali)


Subitamente, algo trouxe a vida,
regenerando os tecidos mortos.
Saem: as escaras,
a carne putrefata,
o mórbido olhar,
a ausência de vaidade.

Ressurreto...
Há vida novamente.

O corpo é preparado
para ser objeto de outrem.

Sacrifício? Não há!

O poeta se entrega
a quem o ama cruelmente...

E nesse reviver tão suicida,
terá o poeta razões para cantar.

Luciano Byron
13/11/2009

12.7.10

OS POEMAS (MÁRIO QUINTANA)


Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde

e pousamno livro que lês.

Quando fechas o livro,

eles alçam vôocomo de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhoso espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...