22.2.12

Evanescência poética

Você mentiu quando falou em amor,
você fingiu que sentia o calor,
o fogo dos que de fato se amam.

Você inventou frases,
omitiu crases,
fugiu e dissimulou.

Você é como tantas luas,
como tantas mulheres nuas,
você é mesmo assim
(e não tem jeito!).

Você vem, vai, vem, vai...
some repentinamente, levanta, cai...
Você é mesmo estranha, ó inspiração poética.

21.2.12

Sibila

Quando eu partir desta vida,
acho que será tudo muito chato.
Meus amigos relembrarão momentos,
alguns familiares chorarão,
os filhos dirão que me amavam tanto...

Quando eu partir, sei lá,
pode ser que eu mesmo
sinta falta desta vida.

A verdade é que quando eu me for,
seja hoje ou amanhã,
não me acostumarei com o tédio
que deve haver do outro lado de lá.

12.2.12

Diário de um professor VI

É, Diário! Parece que nem tempo para me dedicar a meus prazeres eu tenho tido. Escrever é meu maior prazer, mas nesta semana pouco pude fazer! As aulas começaram em todos os lugares em que trabalho e isso me toma quase todo o tempo que o dia tem.
Recentemente, fiquei abalado com uma proposta de emprego que recebi. Ponderei bastante e, confesso!, até pensei em ir. Mas, ao verificar o que PODERIA SER e o que JÁ SOU, resolvi continuar trabalhando nos moldes que estou.
São tantas as expectativas, tantos alunos entregues a nós, professores, que é difícil não sonhar junto com eles. Nervoso? Claro que fico às vezes. No mais das vezes, porém, fico extremamente empolgado com meus "pupilos".
Espero que esta semana tudo dê ainda mais certo para mim e meus alunos!
Sei que nada me separará deste amor, o amor pela docência!
Boas leituras.

9.2.12

Eu mesmo

Nada do que me disserem,
nada do que me propuserem
fará eu deixar de ser quem eu sou!

7.2.12

Link para estudo

Pessoal do 2° ano, aí está um material para estudo.
Basta acessar o seguinte endereço:
http://www.slideshare.net/professoraste/oraes-subordinadas-substantivas

28.1.12

Etimologia sentimental


O amor,gangrena a eliminar personalidades,
inquieta os que o assumem!
As palavras são adocicadas,
os sonhos parecem aceitáveis
e a vida até mais colorida.
O tempo, porém, senhor nosso,
mostra-nos que amar
é perder-se ante o outro,
é uma renúncia insana
a dizimar o que de fato se é!
O amor e o amar são cognatos,
são egoístas desde a etimologia,
são vocábulos a nos controlarem!

Diário de um professor V

28/01/2012
08:54h

Sábado,dia tranquilo... É realmente preciso aproveitar esse dia para ler e meditar muito. Durante a semana, não há muito tempo para isso.
Minhas aulas de quinta-feira e sexta-feira à noite foram muito produtivas. Não posso negar que a forma com que lido com os alunos ajuda muito. Mas, confesso, a última aula é sempre a mais "apática" na visão dos alunos. A mente quer dar atenção à aula, mas o corpo padece o peso de um dia todo de trabalho! Por isso nem cobro muito dos alunos, apenas o silêncio e a tentativa de aprender algo do que estou passando a eles.
****
Ontem, um aluno me ligou. Ele foi aprovado numa universidade federal, ainda que curse o 2º ano, e quer saber a minha opinião sobre o que ele deve fazer, ou seja, quer que eu diga faça isso ou aquilo. Ele diz que a mãe o quer lá, mas ele não sabe bem como resolver esse imbróglio. Resumindo: a bomba veio explodir em minhas mãos. Até parece que sou um sábio conselheiro grego. Coisas desse tipo, cansam-me ainda mais. Aliás, tudo me pesa no pensar. Qualquer probleminha é suficiente para efervescer meu pensar e me deixar muito, muito preocupado. Sei, porém, que isso logo passa...
Feliz, feliz mesmo fiquei na ontem à tarde. Duas ex-alunas que agora estudam na capital me disseram que sentem saudade de minhas aulas. Gostei muito disso. Afinal, elas agora estudam com "um professor referência" na minha área, mas penso que eu não perco muito para ele não (só na remuneração e na fama)!
Bom, vou tomar um café ali porque preciso ir para a roça.
Cordiais e sinceras saudações a todos.

26.1.12

Diário de um Professor IV

26/01/2012
08:15h

Não devia ser assim, mas o professor é um renunciador de si. Dizem que os médicos "renunciam os finais de semana e as noites de sono em prol do paciente". Não sei não, viu! Quem disse isso talvez não entenda bem a alucinante rotina de um professor. Rotina em que, muitas vezes, nem tempo para dormir com a "cuca fresca" ele tem. Aos finais de semana, prepara aula e corrigi prova. Detalhe agravante: se for professor de Língua Portuguesa então, está literalmente "frito". Tudo que ele vê, quer interpretar, analisar. Aí já pensa em como usar isso nas aulas... Haja trabalho!
Aula mesmo, nesta semana só ministrei na segunda-feira. Dia tranquilo, sem grandes empecilhos. Em alguns alunos, desta nova safra de 2012, já vejo uma certa empatia comigo. Já começam a entender mesmo o meu projeto de trabalho. Tenho, por isso, algumas metas a cumprir. Porém, estou "amarrado" por um Plano de Curso que literalmente "engessa" minhas aulas. Sabedor dessas dificuldades, compartilhei com a minha Coordenadora Pedagógica o meu drama:preciso trabalhar muito conteúdo com os meninos e, para tanto, preciso de liberdade para tal! Sinceramente, confio muito na Coordenadora. Muitos colegas reclamam de seus "superiores hierárquicos". Eu me aproximo deles e neles confio. Só assim conseguirei trabalhar bem!
Desde a última segunda, já estou trabalhando na outra escola também. Reuniões, discussões e planejamentos. Algo novo ocorreu lá: tivemos uma muito boa palestra com uma pedagoga e psicóloga. Muito boa a palestra! O senso do trabalho em equipe foi retomado (espero!). Lembrei de uma frase que criei:
Numa constelação, uma estrela pode brilhar mais. No entanto, só haverá o brilho maior da constelação se todas, em uníssono, perfulgenciarem a parte.
Hoje, às 12h, eu deveria estar num almoço na federal. Porém, meus compromissos aqui me impedem de fazê-lo. Uma pena. Mas, o jogo prossegue.
Terça e quarta à noite, desta semana, aproveitei a "folga temporária na agenda" (outros lugares em que trabalho ainda não iniciaram as suas aulas) e fui com meu filho à quadra, assistir a alguns jogos de futebol. Para falar a verdade, fui para acompanhá-lo. Não tenho mais ânimo para ver "peladeiros" numa amadora partida de futebol. Mas gostei... Gostei de ficar perto do meu filho e poder mostrar a ele que também posso levar "entretenimento" a ele e que não sou só aquele que trabalha, trabalha, trabalha...
Alivio-me quando escrevo.
Saudações e abraços a todos.

22.1.12

Diário de um professor III

* Qualquer semelhança com a realidade é mera casualidade.

22/01/2012

09:50h

Domingo é dia de descanso, certo? Não para um professor de Redação. É difícil estar a par de vários assuntos ao mesmo tempo. Para isso, preciso recorrer a jornais, revistas e a alguns noticiários. Livros? Claro que também os leio. Porém, o domingo é um dia carregado para quem tanta coisa tem a ensinar...
Não posso reclamar (e nem o faria!), porém. Meus dois primeiros dias de aula foram bem proveitosos. Já notei alguns dos alunos que realmente entendem o meu projeto de ensino e que logo estarão muito empolgados para mudarem suas vidas através dos estudos. Ensinar à noite não é fácil. Aliás, penso que em nenhum horário tem sido fácil ser professor. Muitos pais já não acompanham a vida estudantil de seus filhos e o resultado é a celeuma em que se transformaram as escolas. Tudo isso sobrecarrega o professor, que muitas vezes faz o papel de pai, amigo e instrutor de ensino. Alguns não aguentam o fardo. Eu, diferentemente de muitos, faço o que gosto e por isso me empenho tanto.
Numa das salas que entrei nesta semana, percebi a falta de perspectivas de alguns. Porém, sei que logo mudarei esta mentalidade deles. Sonhar é preciso! Acreditar que se pode ter uma vida melhor neste país onde nada parece contribuir para a educação tem se tornado quase uma utopia. Mesmo assim, não posso deixar que meus discípulos desanimem e por isso, em alguns casos, até tenho que contar a minha história de vida (luta, superação, garra, fome...) para que eles vejam que ao pobre também é dado o direito de estudar, vencer e "ser alguém na vida" (ainda que muitos digam: "Ele é só um professor")! Já começo a encher o cântaro de alguns com boas novas...
Ah! Ia me esquecendo... Tenho grandes amizades construídas em sala de aula e o meu relacionamento com os alunos tende sempre ao alto astral (ainda que de vez em quando "pedras" apareçam no caminho). Por essa razão, alguns invejam meu jeito e tentam a todo momento me derrubar. Estou firme, porém! Já sei lidar com isso. Nesta semana, incrivelmente, uma "colega" de trabalho até me chamou de "ESSE HOMEM AÍ". Tudo bem... Entendo o despeito dela. Aliás, ela queria minhas aulas... Mas não as terá! Isso é o que a irrita!
O domingo promete ser muito bom para meus propósitos literários.
Amanhã começo a trabalhar em outro escola. Muitas mudanças prometem surgir lá.
Vamos esperar e ver no que dará tanta expectativa.
Saudações a todos.

19.1.12

Diário de um professor II

19/01/2011 (10:11h)
Ontem, até tentei escrever, mas o ânimo não me veio. Confesso que ruminei isso o dia todo, mas preferi deixar para fazer minhas anotações hoje...
O início do ano é meio cruel para nós. Estamos preocupados com horário de aula, com o número de aulas e com o lugar onde daremos aulas! Há uma tendência ao estresse, mas isso logo passa. Superamos tudo muito naturalmente (parece que a nossa vocação de persistência está sempre conosco!).
Nesta semana, recebi algumas mensagens de celular. Aliás, adoro mensagens desse tipo! Duas delas me incomodaram. Elas eram de alunos que diziam confiar em meu trabalho e que contavam comigo para mais um ano de luta escolar. Claro que gostei da confiança em mim depositada! Porém, isso me deixa ainda mais pressionado a exercer um bom trabalho! Fácil não é, mas tentarei não decepcioná-los! Sinceramente, até gosto deste tipo de pressão. Gosto de trabalhar no limite, pois assim rendo mais e não me acomodo. Este ano, então, há um monte de "aventureiros" querendo tomar o meu lugar. Estão ávidos pela minha queda. Pena que eu não os alegrarei! "Permanecerei firme e forte até a morte".
Esta semana é crucial. Tenho que repassar meus horários para os outros lugares em que trabalho. O problema é que me falta horário. Tenho que arrumar um jeito!
Ministrar tantas aulas é duro. Muitas vezes até me esqueço do meu eu. Parece que vivo ininterruptamente como professor. Cansativo? Sim! Mesmo assim, gosto do que faço. Por isso tanto me entrego ao trabalho. Este ano, porém, quero curtir um pouco mais a minha vida pessoal. Vamos ver no que dá.
Hoje começam as aulas e tenho boas perspectivas para elas.
Até mais a todos.
Saudações de paz e bem!

17.1.12

Diário de um professor

*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


17/01/2011

Ontem voltamos ao trabalho. Sinceramente, não sei por que voltamos. Quando se reúnem professores, o negócio fica meio sinistro, cabuloso até (como diriam meus alunos). É uma reclamação por aula, por salário, por mais espaço no grupo... Sinceramente, não sei por que voltamos! Até parece que havia perspectivas de melhorar para nós... Esqueceram-se, os meus colegas, de que uma das máximas deste nosso país é não deixar o povo pensar? Esqueceram-se de que professores bem remunerados desempenham magnificamente bem o seu papel e, por isso, passam a questionar o sistema político instaurado até então?... Justamente por essa razão, continuamos ganhando bem menos do que a maioria dos profissionais graduados.
Mas, deixando de lado tanto lamento (visto que eu já esperava que a cena assim se daria!), um fato muito me incomodou ontem. Um amigo meu, também professor, em roda de conversa , exclamou:
- Enquanto o professor ganhar pouco, não terá respeito social. Qual é o respeito que nós temos fora do colégio? Somos tratados como "coitadinhos". Outro dia, numa fila, um aluno me disse que havia saído muito mal numa prova que fizera e que sua nota só dava para fazer para esses cursos mais fracos, algo como os cursos de licenciatura... Fiquei muito nervoso...
Bom, deixando de lado o que disse meu colega de trabalho, vamos ser realistas. O professor nunca ganhou bem no Brasil. Se ganhou, não foi numa época em que me lembro (parem de me criticar aqueles que estão lendo este diário!). Claro que não se pode ter respeito social uma classe que se autodestrói ou se automutila (o que mais vemos são professores falando mal de outros professores). O ideal seria a união (difícil no caso da classe docente). Mesmo assim, há saídas (eu espero esperançoso!).
Agora é esperar para ver quais os desdobramentos deste ano letivo que se inicia.
Enquanto isso, vou registrando aqui minhas impressões...
Saudações a todos.

16.1.12

Como escrever um bom texto?

A leitura sempre foi uma das grandes contribuidoras para aqueles que intentam a construção de um bom texto! Isso é fato. No entanto, nos últimos anos, o que se tem visto foi uma melhora na parte gramatical do texto e uma queda de qualidade nas informações que os alunos compartilham em suas redações. Como se deu isso? Como melhorar isso?
Inicialmente, é preciso que se ressalte a importância de uma boa base para a formação de futuros “redatores excepcionais”. Tendo sido bem ensinado na Educação Infantil, no Ensino Fundamental, o aluno está a meio caminho de conseguir uma boa produção textual no ensino médio. Claro que o bom ensino das teorias gramaticais, das formas de leitura e das técnicas de redação sozinhas não modelam um “autor excelente”. Ainda assim, são essenciais para que o aluno consiga a base necessária para produzir com autoria e com propriedade textos louváveis.
Por outro lado, alguns alunos são bem instruídos e, quando chegam ao ensino médio, não possuem a base conteudística exigida por alguns temas propostos para a redação. Isso tem gerado redações gramaticalmente bem construídas, estruturalmente bem forjadas e, acreditem!, com pouca abordagem do tema sugerido. Essa é uma falha grave que deve ser construída logo nos primeiros meses do 1º ano do Ensino Médio.
Como, então melhorar a produção textual nos três últimos anos que antecedem a entrada do aluno na universidade? Simples. Primeiramente, é preciso que o aluno esteja atento aos clássicos literários nacionais e a alguns universais. Clássicos não são Best-sellers. Muitos livros bem vendidos pouco ajudarão em temas relevantes das principais universidades brasileiras. O ideal é que o aluno selecione o que irá ler e faça um pequeno projeto de textos afins, o que facilitará a correlação futura que ele poderá estabelecer entre os textos (a chamada intertextualidade). Certamente, muitos se perguntarão sobre quais livros devem ler. Essencialmente, não podem faltar alguns dos nossos grandes autores (Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Marina Colasanti, Graciliano Ramos...). Isso não é uma lista cabal e sim uma lista sugestiva ao aluno.
Filmes também ajudam. Assistir a muitos filmes amplia a área de discussão temática dos alunos. Documentários, filmes mais antigos, lançamentos, releituras de filmes já produzidos... Tudo isso ajudará aqueles que querem de fato se tornarem bons redatores e se prepararem bem para os vestibulares e concursos.
As músicas têm o seu papel de relevância também no contexto de formação do bom redator. Ouvir artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, entre outros, ajuda muito na hora da transmissão de conhecimento por parte de quem escreve o texto. Isso ajudará o leitor a perceber a capacidade de correlação que o emissor possui.
Assim, pensando em tudo isso, o emissor conseguirá as habilidades necessárias para construir a “redação nota 10”, tão almejada por todos. Para isso, não há receita e sim um percurso de leitura que o aluno deve trilhar .

15.1.12

Convivência


A convivência:
trivial metamorfoseado
da outrora beleza extremada.
Melodia fúnebre,
latentes, lastimosos lamentos.
O inverno aparece
e traz os badalos tristes,
o transbordar, o barulho do choro...
Lastimosos lamentos latentes.
Tontas tentativas, o tropeço!
Cada queda, cara na pedra.
O poeta percebe:
a certeza dilacerada.
Novamente, a sina:
neve quente,
no endurecido coração mole.

Pesadelo depois do almoço

O amor quando é forte
faz bater o coração
e mesmo estando sem sorte,
sentindo-me perto da morte,
não me deixo cair ao chão.

A mente pensativa
assusta-se, amedrontada.
E numa ação gradativa
e numa manobra ativa
vou atrás da minha amada.

Ao chegar, ela me olha...
Fico sem graça, falo tanto
que meu peito até se molha
e uma lágrima rola
e me vejo logo em pranto.

Rosinha, envergonhada,
vem minha lágrima conter
e pra mim, toda endeusada,
ela, minha querida namorada,
parece nada entender.

Desabafo! A cabeça a doer
faz de mim um flagelado
e num pulo, sem compreender,
digo a Rosinha, sem querer,
que dela não sou mais namorado.

Ela enlouquece, desmaia,
urra, geme, se aborrece
e sem que uma lágrima caia
ela diz ser da gandaia
como se tudo aquilo ela quisesse.

Não entendo nada, perco a razão
e Rosinha insiste, me xingando
dizendo-me horrores, um monte de palavrões
que não me amava de coração
e que já estava quase me largando.

Um namorado ela arrumara
lá pras bandas de Natal.
E desde então para lá rumara
e que até se casara
quando eu trabalhava em Palmital.

Num repente, um homem barbudo
aparece no lugar.
Ele grande, parrudo,
diz já saber de tudo
e que iria me matar.

Saca o revólver,
dá-me um tiro.
Eu finjo não me mover
e sem ele perceber,
do bolso um canivete tiro.

Enfio-lhe o objeto na garganta
e ele desfalece, espumando.
A Rosinha se amedronta...
Digo-lhe impropérios, deixo-a tonta
e dali me vou andando...

O corpo


Essa apatia,
esse corpo vulnerável:
a vida gasta em futilidades.

Para que enrijecê-los?
Flácidos logo estarão
ao chegar o pôr-do-sol.

A adiposidade generalizada
oculta a bela forma,
dos que um dia "foram"
(e não "eram"!)
egocêntricos seres.

O corpo, no anonimato,
vira arma psicológica,
vira ausência,
vira melancolia,
volve ao nada!

Ressalvas

Mudos gritos,
alma flagelada:
o sofrimento em coletivos.
A introspecção:
certeza do ser ímpar.
Amor incógnito,
vida flagelada:
como ser dois
sendo um no âmago?
Perfídia vã...
Intentei alianças:
Minhas agruras são!

20/01/2011

A folha seca roda, roda, rodopia,
contorciona-se ao vento,
dobra e desdobra
ao acaso...

Numa água, ela cai
e perde a autonomia de outrora.

A foz é o súbito destino,
destino de quem intentou
rompes as amarras do caminho.

19/01/2011

Angústia, vieste de onde?
Onde encontraste forças
para tanto assolar?
Onde tua abstração
encontrou a concretude?
Sem respostas, a personificação
parece-me intransponível.

Constatações


"Beleza é fundamental",
já disse o poeta.
Engana-se: a beleza é acidental!
A mais bela das moças
assim o é enquanto não há posse.
Muitas até chegarão ao casamento,
mas, ainda que "belas",
serão trocadas por outra(s)
ainda mais belas.
A relatividade da beleza de hoje
é o tempo até uma no amanhã.
A tênue certeza, então,
dúvida concreta forma:
se há amor na beleza,
na feiúra há o desamor?

22/09/2009

O poeta, mal

Na cela, o poeta.
Marceneiro linguístico,
desempregado.
Cria, copia,
inova, renova...
O artista só.
Só como a saudade,
sozinho como a solidão.
Olha a folha: branca,
alva como a inspiração
(que lhe falta agora!).
Os dedos desliza sobre o papel,
sente-os marcados,
vincados talvez.
Olha no verso,
há sombras de letras.
Mas como?, logo pensa.
Nada escrevera.
Mas há letras!
Letras de um pensar mediúnico,
de uma vocação insana.
E eis a razão do poeta
pensar não ter manchado
a face da frente da folha:
lembranças poeticidas.

Pai e Mãe

K'ien

A vida atormenta
e fere, e estraçalha
o ser poeta.



K'uen

A morte... ferida aberta n'alma.
O sonho... mal essencial à poesia.
A perda... anseio ímpar.


19/07/2010

12.1.12

As ideias se tornam claras

Como não percebi tudo antes?
Como não notei a ambiguidade das ações,
a fragilidade dos ditos,
a superficialidade dos momentos amorosos?

Como não percebi tudo antes?

Agora, resta essa dor,
essa malfadada dor
(que logo passará,é verdade!)
- segundo as leis Darwinianas...

Como não percebi tudo antes,
eu não sei...
Mas agora entendo bem
o que de fato aconteceu.

11.1.12

Adaptação da estória ouvida

Minha mãe havia me presenteado com uma Bíblia Ilustrada. Nem bem lia direito e já era iniciada nos ritos cristãos de crenças sobre o mundo e o Homem. Não entendia a forma como aquele Deus, O Criador, dizimava as nossas perspectivas de liberdade.
Bom, mas vamos lá. A história inicial era sobre a criação do mundo. Meu Deus! Quanto assombro tive naquele dia. Mamãe ia falando e minha imaginação, estilo “Mundo de Bob”, levava-me a conjecturar como Adão e Eva foram punidos, após conhecerem o pecado, perderem a inocência.
As imagens da Bíblia, essas sim me impressionavam!Parecia que algo era incoerente no discurso que mamãe me ajudava a ler. O pobre Adão, com apenas uma folhinha cobrindo o que até hoje nem ouso mencionar; a Eva com aquele ar de “não entendi nada” e uma enorme cobra, bem maior do que as que eu conhecia até então (ela era a verdadeira culpada pela perda da inocência dos dois; “ela era o próprio diabo personificado”, dizia minha mãe)... E Deus, o Todo Poderoso, com raios e trovões amaldiçoando o Homem para sempre. Tive medo. Tive muito medo! Como o próprio Deus haveria de expulsar suas criaturas do Paraíso? Vai entender, né? Perguntar isso para minha mãe, eu não ousava não! Seria tratada como herege ou desrespeitosa com relação aos ditames cristãos...
Anos depois, já era eu adulta... Após uma conversa com uma amiga, daquelas fanáticas evangélicas, disse que duvidava de tudo que a Bíblia dizia. Então, ela despejou uma infinidade de argumentos bíblicos (todos por mim já conhecidos)que me “incriminavam”. Estaria eu duvidando de tudo que Deus criara? Estaria eu destituída do Paraíso? Tive medo! Não consegui dormir! Já pensou se o Deus viesse falar comigo naquela noite e me repreender...Já imaginou se aquela enorme cobra (Que cobra!) me viesse também conduzir ao inferno... Tive medo! Tive muito medo! Preferi não dormir...
No outro dia, à hora do almoço, entre amigos confessei o meu temor. Claro que muitos riram de mim! Porém, contei-lhes o que havia acontecido.
Mas o pior de tudo era imaginar como havia uma dualidade em mim: via um Deus criador do mundo e um Deus terrivelmente malvado....

8.1.12

Mentira

Ela mentiu...
Virtualmente descobri que ela mentiu.
Não matou ninguém com a mentira,
não mudou a história do mundo,
não mudou nem a própria vida,
mas ela mentiu para mim.

Mentiu por conta própria,
mentiu por prazer ou necessidade
(sempre falam que elas mentem!),
mentiu por pura insanidade!

Ela mentiu...

Mentiu e se confundiu...
Perdeu-se em seus labirintos
e as facetas ocultas foram surgindo...

Ela mentiu e não viu
que quem perdeu com isso
foi só ela, foi só ela,não eu!

6.1.12

Frustração

O amor engana, machuca, maltrata até!
Do nada surge, do nada se consolida
e subitamente some.
Some quando o pensamento insistia em perpetuar...
Some quando o sonho parecia virar realidade...
O coração, tristíssimo palhaço, geme
em gemidos inimagináveis!

Triste canto

A música parou, a música parou...
Dos olhos, copiosas lágrimas,
copiosas lágrimas inundaram o ser...
a dor, a dor de perder
quem um dia tanto amor jurou.

Seria o fim...

As luzes se apagaram como no fim da vida...
"Eu te amo"... "Nunca vou te esquecer"...
Palavras que não foram capazes
de perpetuar um amor...
Se há tanto amor, por que a separação?
Se era para sempre, por que o nunca mais?
Incompreensíveis momentos,
doloridas palavras...

4.1.12

Sensação

Vasculho o pensamento,
busco momentos...
Momentos em que Amor, peralta,
flechou o poeta e sua musa.
Vejo os dois, abraçados,
escassos beijos...
Vejo os dois, trêmulos,
assustados talvez.
Vejo os dois: enamorados.
Vejo os dois agora ligados
pela mesma seta que Amor atirara.
Vejo os dois no amor que construíram,
no desejo que concretizaram,
racionalmente eternizando momentos.

2.1.12

Violentas palavras

As palavras feriram, machucaram...
Os sonhos ficaram nublados...
O amor dado não foi suficiente,
não foi suficiente para conter
a violência com que as palavras
foram escritas...
A dor agora gerada
rompe diques,
faz sofrer e...
entristece a quem as recebeu!

30.12.11

Desfecho

Meneios de vida...
Paz em pequenos pingos...
dor no não-ter
na certeza do não-ser:
(pre)conceitos, nada concreto!
Fim da linha para quem
nunca soube andar nos trilhos.

17/08/2011

Corpo pesado

A densa massa
amassa a forma real.
Há um ser por trás
de toda aquela banha.
Alguém de opinião,
com um ego suprimido
e com a vontade recalcada.
Na adiposidade da silhueta,
sudoríparas se apressam.
O corpo, molhado, rechaçado,
não é dela, não é teu,
não é meu.
A densa massa, fermentada,
sintetiza o anormal,
aquele que não se fez
apenas mais um estereótipo.

01/09/2011

O pé de milho

Naquela curva, o milho,
o pé de milho nasceu.
Nasceu como tantos,
cresceu intentando o eterno.
O branco, o amarelo, o grão de duro,
duro e avermelhado.
Espigas se foram.
Restou aquele inútil pé,
aquele ser vegetal sem função.
O verde amarelou-se,
acobreou-se...
Foi-se a densidade.
Naquela curva, o milho,
o pé de milho percebeu:
dar frutos não conduz
à certeza do eterno.

Não-cor

Rosa claro...
Pontos pretos...
O fígado oscila
entre o fim e o pré-fim.
Glicogênios? Não há.
Células hepáticas? Morreram
(evadiram-se do ser).
Sem metabolismo,
o corpo é só memória.

01/09/2011

A PENA

A pena plaina perene...
Na suavidade de seus passivos movimentos,
ela é conduzida para cá,
para lá, para aqui,
para acolá e ali.
Sua rota sem rumo
experimenta a liberdade.
Tensão...
Gota cai ali, cai acolá,
cai ali, cai acolá
e aqui.
Pequenos pingos:
pena pesada.
O chão e o esquecimento
e a letargia...

FALSA VISÃO

O corpo é traído
pela lucidez dos olhos.
Não se veem as rugas,
a pele seca, a senilidade.
Os olhos julgam pela sensação,
pelo ontem no hoje.

25.12.11

Momento enigmático

Do papel da bala, ainda me lembro bem.

Do beijo dado (não roubado),
da sensação de ineditismo,
do aroma de teu perfume,
da falsa sensação de calma,
ainda me lembro bem.

A pouca luz, o ermo lugar,
o mundo girando em torno do nós,
as poucas palavras pronunciadas,
a percepção de que o impossível
virara possível a nós:
disso ainda me lembro bem.

Lembro-me bem sim de tudo
que nos tomou naquela noite.
Noite eternizada nos arautos do pensar,
noite encarnada de acontecimentos reais,
noite realmente inesquecível.
Inesquecível pelo afeto do momento,
pela consubstanciação do que antes
era apenas um mero sonho ou vontade.
Noite para jamais ser deixada para trás.

18.12.11

Ela

Ela surgiu de repente
com seu jeito envolvente
a me cativar.

Ela piscou serenamente
e me deixou completamente
com vontade de a amar.

Ela mexeu comigo
e hoje sei: não mais consigo
sem ela ficar.

Ela me foi o abrigo
e se for preciso, com o mundo brigo
para com ela me enamorar.

Ela já me faz feliz!
Ela já me faz feliz!
Hoje digo abertamente,
hoje digo abertamente:
Ela é tudo que eu sempre quis!

Mais uma do amor

O amor que não se tem
é promissor,
é esverdeado,
é inconscientemente buscado.

No amor que não se tem
veem-se euforias mil!
Não há as brigas
(embora já haja os ciúmes!),
não há a liberdade,
não há ressentimentos.

Do amor que não se tem
pouco se esperava ter.
Não há o que lamentar,
não se esperava muito
ou quase nada, talvez
(sabe-se lá!).

O amor, que não se tem,
é uma incerteza concreta
na certeza da abstração
construída por tal amar.

Uma desatinada dor,
um descontente contentamento,
um distanciar-se bem próximo...

O amor que não se tem
e á alma do poeta.

17.12.11

Divagações

Sem amar, o poeta se esvai,
esvaindo-se em devaneios
e em construções linguísticas.

Ele analisa enunciados,
relê textos virtualmente enviados...

Sem amar, o poeta vira frágil,
fragilizando ainda mais seu ego.

Nessa sina não-torta
(a de amar e ser amado),
o poeta sofre,
sofismando momentos!

11.12.11

Tio Mário

Os pés de frutas ainda estão lá,
as galinhas-de-angola também...
O córrego, os papagaios, tudo está lá.
Até o cavalo-preto está lá!

Procuro o Tio Mário, não está lá.

Cessaram os causos,
terminaram as estórias de brigas,
não mais há o corpo,
agora há sim o mito.

Tio Mário vive nas bocas das pessoas
que outrora com ele conviveram.

A feira

Pessoas empurrando pessoas.
O homem se transforma:
é refém de seu insensato consumismo!

"Olha a água! Olha a água".
"Sacola, quem quer sacola?".
"Sete meias por dez reais".
"Óculos HB original"...

O egoísmo: uma mulher briga
com a outra por uma blusa.

A certeza buscam na incerteza
da ingrata missão de consumir.

O poeta se assusta:
há mais força na compra
do que no amor ao próximo.

9.12.11

Canto ao amor

As palavras saíram apertadas,
temerosas pela interpretação
que teriam ao serem recebidas.

Houve um subentendido,
houve uma explicitação,
houve a chance de concretizar
o teoricamente inconciliável.

As palavras saíram de outrem...

No poeta, elas foram adubadas,
foram alimentadas,
viraram seara...

As palavras agora são planos,
conjecturam, intentam, juram...

Mais uma vez, as palavras
construíram o amor.

15.11.11

A dinastia das palavras

As palavras foram construindo estradas...
Um subentendido aqui,
um pressuposto ali,
uma associação lógica acolá...

As palavras foram rompendo diques,
transbordando imaginações,
associando coordenações,
limitando ações...

As palavras tornaram o abstrato concreto,
o que se pensava no que se queria falar,
o que se esperava no que se queria buscar,
o que não se conjecturava no que de fato se queria.

As palavras, mais uma vez, mostraram a sua força
e impelem o pensamento a perpetuar períodos.

12.11.11

(In) Certezas

O trabalho foi feito,
o empenho foi dado.
Há tempos é assim,
mais uma vez foi assim!

Como há pouco,
cobranças me incomodam.

Esperam muito
de quem nada mais é
do que um ser humano.

Os defeitos, as expectativas,
os males sem saídas...

Mesmo assim, temo.
Temo como qualquer
outro ser neste mundo.

15.10.11

Abandono (in) humano

A fria calçada se assemelha sim
a um túmulo às escancaras.
O rapaz jovem, a roupa esfarrapada,
a planta dos pés encardida,
a bermuda xadrez e furada.
Moscas o sobrevoam.
Estaria morto?
Seria mesmo um alguém?
Ninguém sabe, ninguém o vê.
Os humanos, em seus egoísmos,
ignoram o irmão que jaz,
jaz ainda que tenha vida!

12.10.11

Melodia


Percorre as cordas do violão,
aquece as cordas vocálicas.
A música cantada não é nova,
não é dela, não empolga...

Refaz-se a posição...
Violão firmado, tom sintonizado.

A música cantada não é nova,
não é dela, mas empolga.

Olhos fechados.
No pescoço, as cordas dilatadas
e o suave som soprado.

Há cadência nas batidas,
há vida nas palavras,
há música mesmo afinal.

No compasso ritmado,
o poeta se esvai...
Mas a música não é nova,
é dele, é trova.

17/02/2011

2.10.11

Lembranças confusas

A imagem evanescente confunde o poeta.

Seria um rosto ou apenas uma (dis) simulação?

Existiria mesmo tal ser
ou isso é apenas mais uma conjectura poética?

E as palavras amorosas?
E os cálidos beijos?
E os apertados abraços?

Há algo que não está dito
em tudo que se viveu.

Em perenes lembranças,
segue o poeta a sua sina.

1.10.11

A morte do passarinho

"Era só um passarinho".

Engano: era "o passarinho".

Ele voava para ali,
para cá,
para lá
e foi no aqui
que seu voo terminou.

Contra o carro, chocou-se.
Subiste, não por tuas asas.
Subiste, não por tua vontade,
ó passarinho.

Pelo retrovisor, teu corpo
é visto pelo motorista
(que frieza!).

Não. Não era só um passarinho.
Era aquele que por muito tempo
tentou levar-nos a Deus
por meio do seu canto.

Voa, voa, passarinho!

Que teu voo seja eterno
ainda que não creiam nisso!

30.9.11

Malditas Comparações

São apenas comparações,
mas o poeta se ofende,
irrita-se com os dois
os dois em que ele se transformara
(ao menos no entender alheio).

São apenas elogios,
mas o poeta se ofende,
pensa que os seus dois eus
tem o mesmo prumo.

São apenas elogios,
mas o poeta sabe
que isso trará ainda mais peso
às suas já machucadas costas.

24.9.11

Ressalvas

O cansaço aflige,
o corpo pede calma.

A alma, agitada,
o espírito inquieto
incitam a percorrer o caminho.

Corre-se para onde?
Busca-se o quê?

Sem respostas, o corpo prossegue
nesta difícil tarefa de progredir.


23.9.11

(in)apto a crescer


No meu tempo de criança,
sabíamos os nomes dos carros,
dos vizinhos, dos colegas de escola.
No meu tempo de criança,
a televisão era nossa diversão,
o Atari era nosso microcosmo,
o futebol na rua esburacada
nos ajudava e nos socializava.
No meu tempo de criança,
brincávamos de adedônia,
tacávamos pedra nas lâmpadas,
tocávamos campainha dos vizinhos
e corríamos para nos esconder.
Eh! No meu tempo de criança,
criança era só criança,
nada mais.

9.9.11

Na esquina


Estás na esquina,
estás na porta do Banco,
deitado na praça,
escondido numa garagem.

És um irmão,
um alguém a esperar um "oi"
ou um aperto de mão.

Estás na esquina,
mas és ignorado
por quem paralelamente
cruza contigo.

És um irmão,
um alguém a esperar um algo mais
dessa vida que só lhe deu encruzilhadas.

GROSSERIA


Pessoas parcas
pronunciam porcas palavras.

No pensamento permanece
a imagem de quem
expeliu impropérios verbais.

12.8.11

Surpresa

A vida que incomoda,
que aflige,
que instiga,
é a mesma que mostra
o quanto se pode ser amado!

22.7.11

Mente vazia?

Quadro de Joan Miró
O pensamento translada
a vida acre
em abstratos desejos.

Nada dizem os lábios,
nada as mãos apalpam,
nada de concreto há.

Lampejos de felicidade...
Evanescentes indícios...
Verbalidades apenas...

Na tentativa de descobrir,
o poeta oculta,
coordena incoerências.

Nesse vazio,
tão povoado de conjecturas,
faz-se o viver.

26/04/2011


5.7.11

Notícia do jornal

A lama leva tudo:a lida finda, enfim.

O mar de água doce
desce a serra
e encerra, e traga,
e engole os restos,
os restos de vida.

um cachorro, teimoso,
a dona morta vigia;
um pai, herculeamente,
nos braços trotegeu o filho
do lájeo peso;
uns vieram para salvar
e jazem soterrados...

No rol da desgraça,
atualiza-se o número,
contam-se os mortos.

Na gênese da causa,
restam incertezas.
A certeza, então, grita:
- "É preciso respeitar
a milenar mãe-natureza".

18/01/2011

12.6.11

O Pêndulo da Morte


As cenas eram confusas. O som incongruente. As galinhas-de-angola, em bando (cinco ou seis talvez) atentamente o observavam. Aceleravam as patas aqui, corriam para ali e céleres cocoricavam em linguajar próprio. Pareciam agitadas (temiam a vidência do porvir?).

Chico Manuel há dias ensaiava a limpeza do pasto. E a foice para o labor? Estava sem corte. Limá-la? Sim. Ao cabo de duas semanas, é claro. A grande apatia demonstrada por ele era compartilhada pela mulher, a decadente “Maria do Chico”.

Neste dia, a taboca era um caldeirão só. Moscas fervilhavam num pedaço delgado de carne. Zumbiam ininterruptamente! Saíram de onde tantos insetos? O pequeno pedaço de carne virou um calhamaço de pontos verdes e varejeiras.

A mulher, capenga de uma perna, apoiada na meia porta, cabelos escassos, catarata em um dos olhos e dois guerreiros dentes naquilo que um dia foram duas arcadas potentes. Tentava mascar uma palha de milho (hábito antigo para passar o tempo). Na velha e escorreita boca, uma porção de catarro dança para lá e para cá. Catarro e palha, palha e catarro...

O marido a contempla.

O velho Totó, acomodado próximo ao fogão de lenha, três patas apenas tinha. A outra? Perdida numa boca de piranha no Rio Piramboia. O coto rabo abanava num movimento inútil. As moscas também lhe cobriam o rosto. Viu Chico Manuel sair, mas permaneceu na inércia. Acompanhar o dono era demandar energia. E na casa onde tudo faltava, abrir mão do repouso enérgico era um privilégio não desejado.

No ombro direito, o cabo da foice dançava amarelecido em Chico. A caminhada era breve mas lhe permitiu a parada para coçar a testa, atritada pela palha do chapéu.

No passivo passo, ainda espantou as angolas que ariscas o circundavam. Bichos enjoados. Saíssem de perto dele, não o importunassem.

Levantou a foice na diagonal direita e a desceu. Zap!, à esquerda. Zap!, à direita.

Sentiu que uma pequena coisa arredondada lhe tocara a perna. Seria apenas uma melancia-de-macaco... Sua precária visão não o permitia discernir o que de muito perto via. Tudo lhe parecia embassado. Mesmo assim, eliminou a moita de mato.

No caminho de volta, pensou na pinguinha que tomaria. Sentiu-se bem. Fizera a sua tarefa do dia.

Ainda transpassava a cerca bamba quando ouviu os alvoroçados sons das galinhas-de-angola.

Na ex-moita, Chico Manuel não viu: haviam se escondido algumas sete angolinhas. Todas mortas e decepadas, todas num amarelo-vermelho, num acinzentado-vermelho sendo veladas tristemente pelas mais velhas angolas.

20.5.11

Pêndulo da morte

O corpo raquítico
segura a foice:
paradoxo real.
A força empreendida,
a destreza do peão,
fazem tudo parecer tão fácil.
Uma moita, próxima ao curral,
uma moita a ser vencida.

Grupo de angolas,
cinco ou seis, talvez,
tentam coibir o avanço,
o avanço do homem.

Enxotadas, ficam ao longe:
parecem humanos a espreitar
desgraças irreversíveis!

À direita, à esquerda,
à direita, à esquerda,
à direita, à esquerda...
Rubra cor no capim esverdeado.

Pequenas angolinhas
com suas cabecinhas
para lá e para cá!

12.4.11

Sofrimento

As cenas confundem,

incomodam, inquietam...

São tantas lembranças

que não levam a nada.

São tantos desejos

perdidos em meio

ao lamaçal da consciência.


Como aguentar,

como não gritar,

como deixar a mente

livre de tanta falsidade?


O corpo apresenta os sinais

do descontrole emocional.

O olhar cansado,

a postura curvada:

o poeta é o mártir

de sua própria arte.

25.3.11

SENSAÇÃO DE PAZ

O suave som
celebra a seiva
de quem se solidariza
serenamente
com o céu estrelado.

20.3.11

Lição da lagartixa


A lagartixa estava ali,
meio sem cor, meio sem vida...
Lentamente, movia-se.
Algo estranho para um ser
tão acostumado a celeridades.
Aproximei-me e vi:
faltava-lhe parte da cabeça,
um dos olhos estava perfurado.
Sofri...
A pobre lagartixa não esboçava
um só lamúrio.
Continuava sua caçada
(quase uma saga impossível),
sem nada conseguir caçar.
A lagartixa mostra
o quanto se vive bem
se ignorarmos a verdade
dos fatos vividos.

7.3.11

Data de nascimento

Hoje é meu aniversário.
Não, não lamentem,
não lamuriem o meu nascimento
no século passado!
Sou feliz, tenho vida,
rejuvenesço a cada ano,
busco me reinventar!
Sou feliz pelos amigos que lembram,
pelos alunos que mandam sms,
pela verdade das palavras
que me dizem.

Hoje é meu aniversário
e a felicidade que sinto
compartilho com meus amigos!

1.3.11

Palavras

São tantas as cenas

que elas incoerentemente

existem sozinhas.


Sem reviverem no pensamento,

perpetuam-se no marasmo

que é o esquecimento.

26.2.11

Desabafo

Tanta coisa a dizer,
tanto a reclamar...

Como pode ser tão diferente
o tratamento que se dá a uns?

Como pode ser tão estranho
o amor destinado ao poeta?

Há dor e vida em mim!

22.2.11

brevidades

O dia cansativo não dizima,

não machuca,

não desilude.


O dia cansativo apenas passa

e com ele ficam as lembranças

de mais um corrido e agitado dia.

19.2.11

Metáfora

A folha voa, plaina levemente

até pairar sob meus pés.

Vida refeita,

folha desfeita.

12.2.11

FALAS


No repertório de lembranças,

está a casa, o campo, o cemitério.


Na casa, umidade, humildade,

velha palhoça a encantar,

a ensinar a viver.


No campo, o sol queima e fere

e amarela as já fatigadas ervas.


No cemitério, vida e morte se misturam

no itinerário de dores do poeta.


E assim, nesta ciranda do passado,

tempo e não-tempo confundem,

fazem sofrer, enganam e aterrorizam

quem as tenta entender.



4.2.11

Grandes pensamentos


Tenho pensamentos enormes,
que me consomem,
que me incomodam,
que me inquietam...

Tenho pensamentos enormes
que me fazem reviver.

Revivendo, repensando,
recapitulando e reerguendo.

Tenho pensamentos tristes,
maioria em mim
(minha triste sina).

26.1.11

O Sentir


Sentimentos são cruzes,

são pedras,

são descaminhos, enfim.


Sentimentos são vivos fantasmas

a nos espreitar

(querem-nos).


Sentimentos têm dois gumes,

afagam e machucam...


Sentimentos são doces melodias

em ásperos lábios sangrentos.


Sentimentos: essenciais e letais,

dualidade de quem intentou

conhecer o algo mais.

19.1.11

Incógnitas


O corpo dourado,
a tez amarelada,
o cabelo anelado,
o jeito envergonhado...

O poeta e suas conjecturas.

18.1.11

O deus Sol


Na maloca mística,
juntam-se os silvícolas
em homenagem ao deus-Sol.
Uns dançam,
outros contam lendas,
outros se iniciam nos ritos tribais
e todos adoram,veneram
a força heliocêntrica.

Entoam cantos específicos
e se preparam
para a chegada do calor divino.

Nesse palor tão desejado,
há esquecimento,
há desprendimento
(como forma de renúncia
em prol do deus).

Ficam parados,
não por pouco tempo,
até que lhes cheguem um sinal.

16.1.11

Chuvas no Rio


Contra o Homem,
a natureza insurge,
executa o papel anti-antropo.

15.1.11

Desabafo


Decepção, permanente companheira,
por que não me dás um lampejo de descanso?

Por que não te vais perpetuar
em outro caminho?

Por que não te assentar
em outra mente, em outro ser?

Decepção, vá-te daqui
(mas leve tuas consequências).

9.1.11

Mundo


Um irmão está jogado na rua.
Não adianta este cobertor que tenho,
não tem valia esse calor,
esse conforto.

Um irmão está jogado na rua,
na chuva, na lama, no charco...

O jornal que o cobria, não serve mais!
O simples cobertor, encharcado está!
O corpo do pobre irmão flutua:
Não, não está mais jogado na rua!

Calmamente, a água o leva,
leva, leva e o eleva
ao cume da existência.

Talvez não tenha Deus,
nem Fé, nem Rei
(sorte dele!).

Uma correnteza mais áspera
faz o corpo oscilar...

O corpo, no entanto, navega...

O destino: o mar
(refúgio de todos os viventes).

3.1.11

Lamentos


Amarga carga...
Como dói o peso
do que não aconteceu!

30.12.10

Dissimulação


Ninguém vê,
mas o outrem muito incomoda.

Em meio a risos vários,
o poeta finge ser,
cria um ser
que a todos parece real.

Sem saber o que ser,
a ferida purejante
atrai só pessimismo.

Nessa vida-morte, então,
o poeta dissimula
a dissimulada verdade.

Poeta


Sem perspectivas, segue a vida
como quem - em grãos - se envenena.

Há dor, há dúvidas...

O poeta segue a sua sina
de ser na vida o ser-não ser.

28.12.10

Incursões


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JUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDAS

JUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDAS

JUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDAS

JUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDAS

JUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDASJUDAS

15.12.10

Vendedor de Redes


Cabisbaixo, embaixo de uma árvore.
Chapéu na mão, sem pão, sem nada:
só há redes, redes várias.

Carense, piauiense, paraibano,
de onde virá esse homem do pano?
Que reflexões o desligaram da venda?

O vendedor de redes é a metáfora
do fazer poético.

(Re) Vivência


Na lembrança, o mel, a doce fantasia
ainda persiste, insiste em existir.

As palavras pareciam cernes,
construíram pontes,
conjugaram o nós,
ignoraram o eles,
subestimaram o mundo real.

Veio o tempo, resolvendo enigmas...

Raras ficaram as mensagens,
poucas foram as conversas.

Destituída, a paixão é ilusão.

Na lembrança, a dúvida, a dor,
a vontade de que tudo se recriasse...

Tristura


Gotas rolam,
rolam e ralam
a pele.

Se o choro lava a alma,
a lágrima limpa a pele,a face.

No chão, a lágrima
irriga vidas,
encerra ciclos,
abre caminhos.

11.12.10

Incursões linguísticas


Tento entender...

Tento. Entende?
Tento ente,
Tento etno,
Tento...

Tento...

Destinatário específico


Quem entende
as entrelinhas...
Ela: só ela
(gêmeos às avessas).

3.12.10

Citando Cartier


Os corpos se confundem,
fundem-se na imagem.
São dois, são um...

Há ausência de cores,
mas os arranjos florais,
grafados no lençol,
dão um tom romântico
ao enlace carnal.

O anonimato instiga
e o observador imagina
o que os olhos não veem.

Há desejo, mas sem excessos.
Há volúpia, necessária
(dada a ocasião).

Os corpos em sua dança
encantam a quem os vê.

19.11.10

ESCURIDÃO


No tropel de incertezas,em disparada,
o rancor, a dor, o sofrimento.

O açougue humano se abre:
carnes e moscas se fundem
na putrefação cromática.

Não há sangue, líquido rubro.
Há coágulos de um vermelho-negro,
êmbolos que se multiplicam.
Incontáveis, as bolas pretas coadunadas
povoam o poeta.

18.11.10

Morte


Não conheço a Morte,
mas ela está em mim,
está no meu trajeto,
está no meu peito,
está em meu pai,
esteve em meu avô.

Não conheço a Morte,
mas ela se aproxima
e me mostra a ampulheta,
ampulheta que me diz:
- "Chegará a tua hora!".

Não conheço a Morte,
mas ela me espreita,
delimita meus passos
e me espera ansiosa
(ainda que eu não queira
conhecê-la!).

13.11.10

(Des) Construção


O abraço que não tive,
o afeto que me faltou,
fizeram-me assim...

A dor que me assolou,
a maldição que me persegue,
deixaram-me assim...

O beijo que não ganhei,
o afago que não senti,
Transformaram-me assim...

O sorriso que não vi,
o bilhete que não recebi,
foram essenciais para que hoje
eu fosse, assim, tão sentimental!

10.11.10

(Des) Viver


O sol marca a pele,
pintas pretas
(parasitas do ocaso).

Na face, faz-se o tempo,
a deplorável cicatriz,
a carcaça humana.

O riso em lágrimas,
o choro em ampulhetas:
Negra imagem se aproxima.

Não mais foge, não mais!

No menos perpetua lembranças,
revira memórias e se atém,
atém-se à teia que o devora.

(Re) Descoberta


O fardo é a gênese poética:
No pescoço, a dor incomoda;
na mente, as lembranças badalam...

Vasculho mentiras,
analiso enunciados,
revisito momentos.

O beijo não existe.
Abraço fogoso?
Não o há!

Desnorteio-me, embalde...

Minha sina torta:
prenúncio de desilusão.

14/09/2010

9.11.10

Ruínas Circulares


A cena cinza, insensata.
Um homem desce o rio,
rema, repensa, retoma
a memória que (des)conhece.

O lugar a que vai,
é velho, é estranho,
é o Templo do Fogo,
é a casa da sabedoria.

"É preciso sonhar", dizia.

Deitado, esvaía-se,
abstraía-se: sonhava.
Virava, então, deus do homem:
gênese antropocêntrica.

Frustração, porém, logo se fez:
fora também produto
do sonho de outro deus-homem.

2.11.10

Mundos Paralelos


A casa é a mesma,
é o mesmo alpendre,
é a mesma cor amarelada das paredes,
é a mesma jabuticabeira,
é o mesmo curral
(ainda que abandonado).

No pensamento,
o ontem e o hoje se entrelaçam,
viram imagem duplicada.

Entre a casa de ontem
e a casa de hoje,
encontra-se o poeta.

Nesse nem lá, nem cá,
sofre, chora, rememora.

O poeta não quer o presente,
mas também não quer o pretérito.

Como fazer os dois mundos coexistirem?
Como ligar o não ao sim,
o abstrato ao concreto?

Não há respostas.
Há dois mundos que não se misturam,
que se fundem
(surrealmente).

Ler é preciso!


Há algum tempo, tenho-me indagado sobre o real valor da leitura dos clássicos (principalmente para alunos egressos do ensino médio). A resposta é simples: sem a leitura dos "mestres literários" não se chega à compreensão dos mecanismos complexos do idioma. Ler, então, Machado de Assis se torna essencial e imprescindível! Conhecer textos de Drummond, é uma das obrigações iniciais do indivíduo. A partir daí, o aluno conseguirá perceber como diferentes autores moldam e usam o idioma dentro de seus textos.

Agindo assim, ou seja, lendo os clássicos, o discente perceberá como funciona a tal "licença poética", tão bem quista por eles (que não raras vezes perguntam-me onde a podem tirar!). Há diferença entre "erro" e "licença poética". Afinal, quando Chico usa a linguagem coloquial em alguns de seus textos está aderindo à possibilidade de reprodução da língua oral (e musicalizada, no caso). Logo, escrever bem não implica necessariamente escrever CORRETAMENTE.

Assim, vai aqui um recado: quem quiser andar "por mares nunca dantes navegados", precisa ler muito e estar a par dos ditames do idioma.

NOTÍCIAS


A mensagem chega,
intentos se confirmam:
caiu o Muro de Berlim!

Rompem-se os limites,
fixam-se leves toques,
conjecturam-se possiblidades...

Resta, no entanto, o temor:
o temor de ter tanto
sem nada ter,
o temor de perder o concreto
na ânsia do abstrato.

29.10.10

Psicografia Barata


Essa dor, essa desgraçada má sorte
é o que herdei, que muitos herdaram
e que leva o poeta ao fundo,
ao fundo de si, ao isolamento de todos.

Pensamento


Pensamento: liberdade do poeta,
pombas em bando,
dos rios, as águas transbordando...

Esse chamar, esse amar,
esse mar, este ar,
este "r" (do infinitivo?!)...

Pensamento: plurimundo,
futuro passado,
presente enjoado.

10.10.10

Sensações


Palavras não vieram,
sons não foram emitidos...

A memória verde irriga
a esperança da volta.

Faltam beijos,
abraços já não os há!

Resta, então,
esperar ou (des) esperar...

1.9.10

Rara flor


Este sorriso...

O encantamento,
a inocência.

O corpo de mulher
confunde-se
com o rosto de menina.

Este sorriso dual:
luz e trevas
a quem outra sina
não conhece.

Este sorriso,
lótus rara,
menina Ceta.

20.8.10

INDECISÃO


Indecisão...
A dor humana reside na
I-N-D-E-C-I-S-Ã-O!

O pensamento insiste
em ver os dois caminhos.

O de cá é farto,
é de bons frutos,
é de boa safra.

O de lá é escasso,
falta celulose,
falta motivação.

O que fazer?
Se na vida há tantos nãos
porque não escolher um
e abdicar do outro?

Indecisão...
És minha suprema companheira
nesta dura missão de:
D-E-C-I-D-I-R.

14.8.10

Pavão Genérico


Hoje tive uma infeliz experiência. Distraidamente, respondi a alguém que postava alguns textos num blogue. Prontamente, o pífio ser disse: "Você faz isso? Eu não tenho paciência para isso!". O pior de tudo foi que tal elemento se diz professor de Língua Portuguesa. Como pode um indivíduo dizer que é professor e ignorar os gêneros textuais hoje tão em voga (vide o fato de que até as Bancas de alguns vestibulares aderiram a livros dos chamados autores blogueiros)?
A empáfia parece-lhe ter tapado os olhos. Um pavão sem beleza, artificial! É isso! Um dublê de professor.

6.8.10


DECISÕES


A notícia trouxe a necessidade
de tomar decisões.
Não quero fugir,
mas não quero ficar...


Decidir machuca:
amigos ficarão chateados,
colegas ficarão desamparados...
O poeta precisa prosseguir
e decidir,
e mudar,
e lutar,
e c-a-n-s-a-r.

O poeta não desiste
e luta!
Luta para vencer
a dura peleja.

Na decisão,
reside a dor
e a vida do poeta.